Recuperação de orla: Quarta obra de ‘engorda’ em 27 anos acende alerta sobre nível do mar

Especialistas apontam que aumento global das marés está reduzindo a vida útil de alargamentos artificiais; cidade precisou retirar quase 500 mil m³ de areia do fundo do oceano

Avanço do nível do mar fez com que cidade do litoral catarinense passasse por quarta 'engorda' da faixa de areia (Divulgação/PMBP)

O avanço acelerado do nível do mar e a dinâmica das marés – problema recorrente em cidades litorâneas – forçaram a Prefeitura de Balneário Piçarras, no Litoral Norte de Santa Catarina, a recalcular o projeto de recuperação de sua orla.

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Após novos estudos técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias (INPH), o município ampliou a obra de alargamento da faixa de areia em 430 metros além do planejado, totalizando um trecho de quase 2,5 quilômetros de intervenção.

A obra, concluída na primeira quinzena de abril de 2026, marca a quarta intervenção do gênero na cidade em 27 anos. O histórico de engordas (1998, 2008 e 2012) reforça um alerta de especialistas: o aumento global do nível do mar está reduzindo o tempo de “vida útil” dessas operações emergenciais.

Investimento e logística da Obra

O projeto original, orçado em pouco mais de R$ 40 milhões, recebeu um aporte adicional de R$ 9,57 milhões para cobrir a extensão ao norte do molhe da Avenida Getúlio Vargas.

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Para viabilizar o novo cenário, o processo utilizou dragas de grande porte que retiraram 493 mil m³ de sedimentos de uma jazida submarina localizada a 10,5 quilômetros da costa, na região da Ponta da Vigia, em Penha.

A professora Janete Josina de Abreu, coordenadora de Desastres Naturais na UFSC, classifica que a técnica, mesmo sendo robusta, é uma solução de mitigação.

Segundo ela, em praias arenosas, o fenômeno ocorre quando o litoral perde mais sedimentos do que recebe. Janete ainda explica que o alargamento é uma alternativa menos impactante que os muros de concreto. Mas, frequentemente, funciona como uma medida paliativa e não definitiva.

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O desafio do Selo Bandeira Azul

Reconhecida internacionalmente pela qualidade de suas águas, Balneário Piçarras precisou adotar uma postura de transparência em relação ao selo Bandeira Azul. Durante a execução dos trabalhos, as equipes removeram preventivamente as bandeiras nos trechos afetados pelas dragas.

Em nota oficial, a prefeitura esclareceu os pontos principais:

Ação Preventiva: A retirada evitou o descumprimento de critérios internacionais durante a movimentação de sedimentos.

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Qualidade da Água: Análises semanais não detectaram alterações graves na balneabilidade desde o início do ano.

Retorno do Selo: O município já prepara a documentação para retomar a certificação plena na temporada de verão 2026/2027.

Tendência no Litoral brasileiro

O caso de Piçarras não é isolado. Cidades como Balneário Camboriú e Florianópolis também recorreram ao alargamento para proteger a infraestrutura urbana e garantir o turismo. No entanto, o crescimento acelerado do nível do mar impõe um desafio logístico e financeiro: o intervalo entre as obras está encurtando.

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Seguindo para o Litoral de São Paulo, mais precisamente em São Vicente, a Justiça determinou que a Prefeitura tome medidas urgentes para conter o avanço do mar em praias famosas como Gonzaguinha e Milionários.

A erosão em Piçarras demonstra que, sem o controle da ocupação humana na linha costeira, a reposição artificial de areia torna-se uma manutenção constante e onerosa para os cofres públicos, exigindo monitoramento hidrológico ininterrupto para evitar que o mar “engula” os investimentos milionários em poucos anos.