Prainha Branca, em Guarujá, sofre com o coronavírus

Três idosos e dois jovens (dois de uma mesma família) foram vítimas fatais

Comentar
Compartilhar
01 SET 2020Por Carlos Ratton07h00
Sem máscaras e aglomerados, frequentadores ameaçam caiçarasFoto: Reprodução

No final de semana em que foi registrado um movimento elevado de pessoas quebrando o isolamento e ocupando as areias das praias da Baixada Santista, uma em especial pode ser considerado o caso mais grave: a Prainha Branca, em Guarujá, por conta da proximidade de seus habitantes fixos: cerca de 100 famílias (400 pessoas) e 60 comerciantes.

Até agora, cinco pessoas - três idosos e dois jovens de 35 e 40 anos (dois de uma mesma família) - já foram vítimas fatais de Covid-19. Os moradores residem próximos e dependem do convívio social para superar a falta de estrutura urbana no verdadeiro paraíso escondido, situado na reserva ambiental da Serra do Guararú.

Mesmo com acessos difíceis - uma trilha pela Mata Atlântica (construída pelos moradores) de cerca de 40 minutos de caminhada, partindo da balsa Guarujá-Bertioga, e por barco, atravessando o canal que divide as cidades - turistas lotaram o local sem máscaras.

"Os dois guardas municipais não dão conta dos abusos. Estamos tentando pedir reforço às prefeituras das duas cidades. Existe uma base da Polícia Militar que nunca tem policial. Além da pandemia, estamos expostos às drogas e à violência todos os dias do ano", conta uma moradora, que não suporta mais a situação.

Ameaças

Todos estão com muito medo, pois são ameaçados quando alertam os frequentadores sobre a necessidade de proteção. O posto de saúde construído pelos moradores no local há meses não tem médico. O mais próximo fica na Praia do Perequê, cerca de 15 quilômetros e uma hora e meia de condução.

Também só há duas alternativas de hospitais: o Hospital Santo Amaro, localizado a 30 quilômetros e com pouca opção de transporte público, e o Hospital Municipal de Bertioga, que fica a cerca de 10 quilômetros após atravessar de balsa ou barco, levando também mais de uma hora para chegar.

"Uma senhora teve que ser levada de carrinho de mão a um local adequado para pegar uma condução até o hospital. Ela acabou falecendo dias depois", aponta outra moradora.

A Prainha é parte de uma imensa área de Mata Atlântica, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat).

Não resolve

Outro problema não se resolve. Os moradores lutam há décadas pelo uso de uma estrada particular - único acesso viário entre a Rodovia Ariovaldo de Almeida Viana (conhecida como Estrada Guarujá-Bertioga). Anos atrás, surgiu a ideia de um desvio de cerca de 100 metros na estrada, garantindo rapidez no percurso às famílias, mas o projeto não foi adiante.

O Município chegou a firmar um termo administrativo com o proprietário, ocorrido por solicitação do Ministério Público (MP), visando liberar o acesso de veículos à praia por sua propriedade, mas o acordo nunca foi respeitado.

Baixada

Conforme publicado ontem pelo Diário, a Baixada Santista inicia setembro com a possibilidade de alcançar a marca de 50 mil casos confirmados de coronavírus antes mesmo da primeira quinzena se encerrar. Ontem, os números já passaram de 49 mil casos confirmados, segundo dados das nove secretarias de saúde da Baixada Santista. As cidades contabilizam quase 37 mil pacientes recuperados. Já o número de óbitos atingiu a marca de 1.770

Prefeituras

A Prefeitura de Bertioga informa que a questão compete à de Guarujá que, por sua vez, garante assistência na Unidade de Saúde da Família (Usafa) do Perequê. Além disso, afirma que uma médica está disponível quinzenalmente para realizar o atendimento à população, assim como uma técnica de enfermagem e agentes comunitários de saúde. A Guarda Civil Municipal atua em complemento às ações da PM.