“Pode matar em minutos”: especialista alerta sobre o uso de insulina e esteroides por conta própria

Especialista em detalhes como a periodização correta e a constância nos treinos ativam vias de sinalização hipertrófica eficientes no corpo humano sem a necessidade de recursos sintéticos

Especialista alerta para os perigos da vigorexia

Especialista alerta para os perigos da vigorexia/Reprodução Pexels

A busca pelo corpo perfeito, amplificada pelas redes sociais e pela pressão estética, tem levado muitos jovens a recorrerem a recursos perigosos para acelerar o ganho de massa muscular. Entre eles, a manipulação de hormônios como a insulina e os esteroides anabolizantes sem acompanhamento médico representa um risco iminente de morte, conforme alertam especialistas em educação física e medicina do esporte.

Segundo o educador fisíco Gustavo João Allegretti, professor do Centro Universitário FMU, o primeiro ponto que confunde a maioria dos praticantes é a própria definição de “treino de alta intensidade”. De acordo com as diretrizes do Colégio Americano de Medicina do Esporte (ACSM), para obter ganhos hipertróficos, o número ideal de repetições fica entre 8 e 12, o que obriga o praticante a utilizar intensidades entre 70% e 85% do seu máximo de força.

No entanto, quando um atleta de maratona corre por mais de duas horas ininterruptas a uma velocidade média de 20 a 23 km/h, o esforço representa apenas 75% a 85% do seu VO₂ máximo. Ou seja, a percepção de “alta intensidade” muitas vezes é enganosa. Se o esforço realmente ultrapassasse 90% do VO₂ máximo, o atleta não conseguiria sustentá-lo por tanto tempo.

Essa mesma lógica se aplica à musculação. Quando um atleta realiza um agachamento com 200 kg para 8 a 12 repetições, essa carga representa de 75% a 85% do seu máximo de força naquele movimento articular específico.

“Se isso realmente fosse alta intensidade, teria que ser algo acima de 90% do VO₂máx, o que impossibilitaria a permanência no esforço por tanto tempo”, explica.

O perigo oculto dos hormônios anabólicos

O grande problema, segundo o especialista, surge quando o praticante resolve acelerar artificialmente os resultados. O uso de recursos ergogênicos, como os hormônios, possibilita o aumento rápido da carga, gerando ganhos mais céleres de força e hipertrofia.

No entanto, os tecidos conjuntivos, como tendões e ligamentos, não conseguem acompanhar esse ganho abrupto. Como resultado, o risco de lesões graves, como rupturas parciais ou totais, aumenta drasticamente.

Quando se fala em hormônios anabólicos sintéticos, a referência principal são os Esteroides Androgênicos Anabólicos (EAA), derivados sintéticos da testosterona. Eles foram desenvolvidos para maximizar os efeitos de construção tecidual. Porém, a manipulação de outros hormônios, como a insulina, que não tem nenhuma relação com a testosterona, mas é um poderoso anabolizante natural do organismo, representa um risco ainda maior.

“Quando se administra insulina exógena antes ou logo após o treino, a taxa de glicose no sangue despenca de forma imprevisível. Isso pode desencadear uma hipoglicemia severa, que evolui rapidamente para choque hipoglicêmico, coma, parada cardiorrespiratória e morte encefálica em questão de minutos”, alerta Gustavo.

Danos ao coração e à saúde cardiovascular

A associação de esteroides com insulina e outros hormônios acelera o desenvolvimento de patologias cardíacas graves. Entre os efeitos colaterais mais comuns estão a retenção hídrica, a disfunção endotelial e o aumento do hematócrito (o que deixa o sangue mais denso). Essas alterações elevam a resistência vascular periférica e geram hipertensão arterial.

“O coração precisa fazer mais força para bombear o sangue, resultando em Hipertrofia Ventricular Esquerda (HVE) patológica”, alerta. Diferente do “coração de atleta” saudável, essa hipertrofia é acompanhada de fibrose miocárdica, comprometendo a segurança e a longevidade do praticante.

Pressão estética e o papel do educador físico

O caso do fisiculturista Gabriel Ganley, que morreu aos 22 anos, reacendeu o debate sobre a pressão estética nas redes sociais. Diante desse cenário, Gustavo afirma que um acompanhamento profissional não pode ser apenas um “passador de treinos”.

O profissional, segundo ele precisa atuar na linha de frente da conscientização, explicando aos jovens que a estética exibida em redes sociais, muitas vezes mantida sob filtros, iluminação estratégica e doses de substâncias nocivas, não é sustentável de forma saudável, quando não é completamente irreal.

Conheça a história por trás do trágico caso do jovem Influenciador Gabriel Ganley:

Além disso, o educador físico deve estimular o jovem a comemorar melhorias na performance, como o incremento de carga, a execução da técnica perfeita, a melhora do condicionamento e a redução de dores.

Quando identifica sinais de vigorexia ou distúrbios de autoimagem, como isolamento social, ansiedade ou uso compulsivo de substâncias, o profissional deve acolher o aluno e encaminhá-lo para suporte psicológico e psiquiátrico.

É possível ter ganhos expressivos de forma natural?

Sim, a literatura científica em ciência do esporte comprova que o corpo humano possui vias de sinalização hipertrófica extremamente eficientes. É perfeitamente possível alcançar uma janela de hipertrofia altamente eficiente de forma 100% natural.

Para isso, o treino precisa contar com a manipulação correta das variáveis científicas: periodização, aumento crônico do volume ou da intensidade, treino com alto nível de esforço (deixando de 0 a 3 repetições em reserva), estímulo de cada grupamento muscular de 1 a 2 vezes por semana, e escolha do método de treinamento adequado ao nível do praticante.

Portanto, a orientação é extremamente importante para auxiliar na montagem e nos ajustes necessários ao treinamento, garantindo que os resultados venham sem comprometer a saúde.