Morte de Gabriel Ganley acende alerta sobre o uso irregular de insulina no fisiculturismo

Após a perda precoce do influenciador Gabriel Ganley aos 22 anos, médicos e cientistas alertam para o perigo da hipoglicemia grave causada pelo uso do hormônio fora do controle médico

Galeria Gabriel Ganley

Além dos treinos intensos, Gabriel Ganley também falava sobre pressão estética / Reprodução

A morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de apenas 22 anos, reacendeu o debate sobre o uso irregular de insulina. Esse tipo de prática ocorre principalmente entre aqueles que atuam em esportes voltados ao ganho extremo de massa muscular. Dias antes de morrer, o atleta havia relatado nas redes sociais um episódio de hipoglicemia.

Ele aplicou insulina em meio a uma rotina de alimentação restrita, o que levantou discussões sobre os riscos do hormônio quando utilizado por pessoas sem diabetes e fora de acompanhamento médico.

O que leva fisiculturistas a usar insulina?

A medicina descreve a insulina como um hormônio de ação anabólica. Ele é capaz de reduzir a degradação muscular, favorecer o armazenamento de nutrientes e aumentar o volume muscular. Por esse motivo, parte do fisiculturismo passou a utilizá-la de forma clandestina em busca de maior ganho de massa corporal.

Uma pesquisa publicada em 2024 por Filippo Giorgio Di Girolamo e sua equipe no periódico Springer Nature já explica como o uso indevido de insulina no fisiculturismo apresenta riscos relevantes à saúde. O principal risco descrito é a hipoglicemia grave, que pode ocorrer devido à ação direta da insulina na redução da glicose circulante.

Insulina indispensável para diabetes, mas perigosa sem controle

Vale destacar que a insulina é considerada indispensável no tratamento de pessoas com diabetes, especialmente nos casos em que o organismo deixa de produzir o hormônio adequadamente. Entretanto, médicos relatam que a substância passou a circular também em ambientes ligados ao fisiculturismo, onde é utilizada de forma irregular para acelerar o crescimento muscular.

Um levantamento publicado em 2024 na revista científica Sports Medicine Open, hospedado na Nature Springer, identificou a presença frequente da insulina em protocolos utilizados por fisiculturistas. O estudo avaliou atletas e apontou que parte significativa deles combinava o hormônio com esteroides anabolizantes e hormônio do crescimento.

Crescimento alarmante no consumo de anabolizantes

Segundo dados da Anvisa, o consumo de anabolizantes cresceu cerca de 45% entre 2019 e 2021. Para exemplificar, o volume de vendas saltou de 1,3 milhão para quase 2 milhões de embalagens.

O uso de insulina entre fisiculturistas aparece associado a estratégias voltadas à maximização de ganho de massa muscular em fases específicas de treinamento, com ou sem os anabolizantes. Isso acontece especialmente quando o objetivo é ampliar rapidamente o volume corporal.

O estudo descreve que, nesse contexto, o hormônio é incorporado como parte de rotinas de “otimização metabólica”. Nessa abordagem, o foco não está apenas no treino, mas na manipulação do ambiente hormonal e energético do corpo.

Os autores apontam que a lógica por trás desse uso está relacionada ao papel da insulina no metabolismo humano. Trata-se de um hormônio com forte ação anabólica, capaz de influenciar o armazenamento de nutrientes e a síntese de proteínas.

Dentro desse raciocínio, alguns atletas a utilizariam para tentar potencializar o aproveitamento de carboidratos e aminoácidos ingeridos. Dessa forma, eles criam um cenário mais favorável ao crescimento muscular durante períodos de alta demanda calórica.

Combinação perigosa e dificuldade de detecção

A pesquisa também destaca que esse comportamento raramente ocorre de forma isolada. A insulina costuma ser combinada com esteroides anabolizantes e hormônio do crescimento em protocolos informais utilizados no meio do fisiculturismo. Os pesquisadores descrevem essa prática como uma tentativa de somar efeitos metabólicos distintos.

No entanto, essa combinação busca intensificar o ganho de massa, mas também aumenta a instabilidade fisiológica e a complexidade do controle dos efeitos no organismo.

Os endocrinologistas também apontam que os anabolizantes podem reduzir o colesterol HDL, elevar a pressão arterial e favorecer processos de coagulação sanguínea. Além disso, o coração tende a sofrer hipertrofia devido ao estímulo hormonal contínuo. Outro fator preocupante é a dificuldade de detecção da insulina em exames antidoping.

Leo Stronda alerta sobre os perigos dos esteroides

Durante o Arnold Sports Festival 2026, o influenciador fitness Leo Stronda, que lamentou a morte de Ganley nas redes sociais, comentou sobre a preocupação com a busca pelo “shape”. Durante o bate-papo, Leo foi direto ao ponto sobre o uso de substâncias de performance. “Esteja ciente dos riscos do que está fazendo e do que está consumindo. O fato incontestável é que, se você usar esteroides sem critério, vai se arrepender”, afirmou.

Parte da procura por anabolizantes vem da ideia de conquistar um corpo “atlético”, principalmente por aqueles que iniciam no fisiculturismo, esporte que busca a perfeição da definição corporal. Mesmo admirando o esporte, Leo afirmou que todos podem ser fisiculturistas, mas poucos serão bons fisiculturistas.

Isso se deve a um fator crucial: a genética. “Muitas pessoas acham que todos podem ser atletas, mas a verdade é que nem todos conseguem ser bons atletas, pois a genética é um fator determinante”, concluiu.