Papo de Domingo: ‘O amor é maior que qualquer diferença'

Julia Leal, presidente de um grupo de apoio à adoção em Praia Grande, define a relação como troca, e não caridade

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24 MAI 201510h45

A comerciante Julia Leal tinha dois filhos biológicos quando decidiu adotar uma criança. Outra gestação não passava pela sua cabeça e o desejo de ter uma filha era grande. Esperou três anos para ver a pequena Isabela em seus braços. Foram dias de angústia e ansiedade. A experiência fez com que enxergasse a adoção de outra forma. Motivada pela cunhada, decidiu, há cinco anos, formar, em Praia Grande, o Grupo de Apoio à Adoção ‘Laços de Amor’ (Gaala).

O grupo une pais que já adotaram e os que pretendem adotar. Ao compartilhar suas histórias, eles conseguem ter uma visão ampliada da adoção e contribuem para eliminação do preconceito. Entre os avanços obtidos desde a criação do Gaala, está o aumento da adoção de grupos de irmãos em Praia Grande.

Diário do Litoral – Por que você decidiu adotar?

Julia Leal -
Tenho três filhos. Dois biológicos. Quando meu filho tinha 2 anos, eu e meu marido cogitamos a possibilidade de adotar e entramos na fila de adoção. Nós queríamos uma menininha e ele (o marido) fez a vasectomia quando o nenêm tinha 3 meses. Na época, eu aguardei três anos na fila. A gente escolhe a fila e eu escolhi a fila mais longa. Eu queria bebê e menina. Todo mundo quer nenê e todo mundo quer menina. A Isabela chegou depois de três anos. Veio com 5 meses. Eu fiquei doente aguardando. Passei uma ansiedade louca como se fosse o primeiro filho.

DL – A ideia de formar o Gaala surgiu a partir da sua experiência?

Julia -
Quando a Isabela chegou depois desses três anos de espera, as pessoas começaram a perguntar como eu consegui aquela menina linda e como faziam para adotar também. Minha cunhada, que é vice-presidente do Gaala, é assistente social do Fórum de Praia Grande e viu toda a minha angústia. Durante o período de espera, ela explicou que abrigo não é fábrica de bebê e que está cheio de crianças para adotar. Eu não conseguia entender. Não conseguia assimilar. Eu também fazia parte dos casais que não entendem que a realidade é outra. A gente é tão ignorante por ignorar, a gente vai em busca de uma coisa que não sabe. Mas com o tempo passei a entender esse universo. Em São Vicente já tinha um grupo de apoio que é o Maternizar. Pensei: a Praia Grande merecia um grupo de apoio. A minha cunhada incentivou e a vontade veio com tudo. Há cinco anos não tínhamos a noção das proporções que iria tomar. A diretora do COC nos cedeu o espaço da escola para as reuniões e então demos início ao Gaala.

DL – O que é o Gaala e qual o papel dele no processo de adoção em Praia Grande?

Julia -
Quando as pessoas querem adotar vão ao Fórum. O abrigo que mantém as crianças para adoção é mantido pela Prefeitura. A assistente social do Fórum vai dar uma lista de documentos que tem providenciar. Elas vão perguntar: quer uma dica para tentar entender melhor como funciona isso? Procura o Gaala. O Gaala é um grupo na Cidade que te dá apoio e que vai te orientar. Não tem custo nenhum, são feitos por profissionais voluntários que estão ali querendo ajudar. Não tem gasto, não tem nada.

DL - Quando o Fórum encaminha essas pessoas para vocês, como o Gaala as recebe?

Julia
- Primeira coisa: um grande abraço, um grande querer bem, um enorme carinho. A pessoa entra no grupo muitas vezes na fase do luto, quando descobriu que não pode ter um filho ou acabou de perder um filho. A gente forma uma família. Nossas reuniões chegam a ter, em média, 70 pessoas. Quando iniciou eram 45 por encontro.

DL - Qual o trabalho o Gaala desenvolve?

Julia -
O nosso trabalho ainda é muito pequeno. Esse trabalho é de formiguinha. A pessoa quando chega primeiro ela é acolhida. Nas reuniões temos depoimentos de pessoas que já adotaram. Conversas sobre revelação (contar para a criança sobre a adoção). Falamos sobre a fila e explicamos o porquê da demora. Não conseguimos fazer atendimento individualizado. Tudo é feito em grupo.

'Enquanto a gente procurar crianças para os pais, a fila será grande' (Foto: Luiz Torres/DL)

DL – Por que a fila da adoção é grande?

Julia -
O casal não procura o perfil que está lá no abrigo. O perfil que eles procuram são bebês de até 3 anos, no máximo até 5 anos. O perfil dos abrigos são grupos de irmãos. Três, quatro crianças, irmãos e acima de 3 anos. Acontece de ter uma de 3, outra de 7 e outra de 15. Se existe vínculo, tem que adotar todo. Se não for assim, como vai ficar a cabeça dessas crianças? Você adotar para desvincular é dificil. Eles viveram juntos, eles têm uma história. Crianças com necessidades especiais também estão no perfil dos abrigos.

DL - E como diminuir essa fila?

Julia -
Nem todas as cidades têm grupos de apoio. O grupo entra com a humanização, outro sentimento. Olhar para quem está esperando, que está com dor, com ansiedade, mas também mostrar que tem crianças com muito mais dor do que eles. Mostrar que a gente não procura criança para os pais. A gente procura pais para as crianças. Essa é a verdade. Enquanto a gente procurar crianças para os pais, a fila será grande. A hora que a fila mudar a gente terá um grande avanço. A gente fala da fila dos pretendes a adoção e a fila das crianças? Quanto tempo eles estão na fila esperando uma família e correndo o risco de nunca terem um pai e uma mãe.

DL – As crianças negras ou com deficiência costumam ser deixadas de lado na preferência da adoção?

Julia -
Hoje menos, mas acontece ainda. A pessoa muitas vezes não quer, porque é diferente da família, porque vai ter que explicar. Tudo isso o grupo (o Gaala) faz a mudança. O grupo faz olhar com outros olhos. O amor é maior que qualquer diferença. Se você tiver um filho da sua barriga com problemas ou diferente você não vai amar?

DL - Nesses cinco anos, qual história que mais marcou?

Julia -
Uma história que sempre lembro é a de duas amigas de 5 anos que dormiam juntos no abrigo. Os casais faziam parte do grupo. A gente deixa muito que eles falem. Nesse dia, uma das mães, que é solteira disse: eu tenho lá um quarto que está pronto e estou aberta tanto para uma criança pequena como maior. Ela viveu aquilo com tanta força. A minha cunhada ouviu e pensou tenho uma criança que tem tudo a ver com ela. Eu vou tentar falar com ela. Você tem que ter uma sensabilidade muito grande para achar a coisa certa. E ela adotou a menina. O outro casal adotou a outra menina. As duas pensavam em bebês e desde que elas começaram a participar do grupo a cabeça foi mudando. O dia que as amigas se encontraram no Gaala você não tem a emoção das duas, pois cada uma tinha ido para a sua família. Hoje elas já estão com 10 anos e convivem no grupo.

DL – Hoje vocês realizam uma caminhada em comemoração ao Dia Municipal da Adoção. Qual o objetivo?

Julia Leal -
Livrar os preconceitos, mostrar que a adoção tem que ser legal, mostrar que a gente existe. Que adotar é normal e que somos uma família como qualquer outra. A nossa família existe. Adotar não é uma caridade. Adotar é uma troca. Eu queria amar um filho e ele veio para me amar. Filho adotado é igual. Tem que ter limite e que problemas terão sendo adotados ou não. Não cabe mais preconceito. Somos todos iguais e queremos respeito. A caminhada tem início às 10 horas, na Praça Duque de Caxias, no Forte, e segue pela avenida da praia até a Guilhermina. Vamos trocar camisetas do grupo por fraldas descartáveis que serão destinadas ao Fundo Social de Solidariedade de Praia Grande.

DL – Qualquer pessoa pode participar do Gaala? Onde ocorrem as reuniões?

Julia –
Qualquer pessoa pode participar. As reuniões acontecem no COC Novo Mundo, que fica na Avenida Marechal Mallet, 392, no Forte, em Praia Grande. As reuniões ocorrem na penúltima quinta-feira do mês, às 20 horas. Mais informações pelo 3016-6152.