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Nigeriano expõe na mostra ‘Africanidades’

Nigeriano radicado em São Vicente aborda cultura, política e religião

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02 FEV 201510h48

Um curso de aperfeiçoamento em mergulho, no Rio de Janeiro, apresentou o Brasil ao nigeriano Augustine Ufoama Kawoh, de 33 anos. Há três anos, entre idas e vindas, o mergulhador e artista plástico decidiu adotar o País como sua segunda casa. Foi em uma das capacitações, em Santos, que conheceu a esposa brasileira. Fixou residência no município de São Vicente, onde atualmente vive da arte e tem a oportunidade de ver seus quadros expostos no museu que evidencia a cultura de seu povo.

“Ser mergulhador me levou para muitos lugares. As oportunidades de emprego são muito grandes. Mas foi pelo Brasil que me encantei. O povo daqui é muito acolhedor”, disse Kawoh. Apesar do pouco tempo no Brasil, o sorridente nigeriano da cidade de Lagos fala bem o português, ainda que com sotaque inglês carregado.

Kawoh é um dos 12 artistas plásticos que têm as obras expostas na Casa de Cultura Afrobrasileira, o antigo Museu dos Escravos, que foi restaurado e reaberto recentemente ao público, no Parque Ecológico Voturuá, em São Vicente. A mostra ‘Africanidades’ reúne 16 quadros, que retratam a cultura afrobrasileira. “Eu já era artista em meu país. Quando fui morar com a minha esposa em São Vicente ela disse para procurar a Secretaria de Cultura para mostrar a minha arte”, contou. O nigeriano também teve a oportunidade de contracenar ao lado do ator Rafael Zulu, na Encenação da Fundação de São Vicente deste ano.

O artista plástico disse que se sente privilegiado em ter suas obras expostas no museu. “A cidade de São Vicente tem muita história. O mundo conhece Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, mas não sabe que foi aqui que começou a história do Brasil”. Além dos quadros, Kawoh mantém em sua residência uma pequena estamparia onde comercializa camisetas e peças de vestuário.

Quadros do artista plástico Augustine Kawoh estão expostos em São Vicente; nigeriano está há três anos no Brasil (Foto: Matheus Tagé/DL)

O nigeriano destacou que em seu país um museu parecido com o de São Vicente retrata a vida dos escravos que foram trazidos ao Brasil. “É um antigo porto de escravos, na cidade de Badagry. Se chama Casa dos Escravos Afrobrasileiros. A Casa Grande se tornou um museu bem parecido com o daqui”. Ele ressaltou que espaços como esses são necessários para valorizar a cultura afro e preservar a história. “Temos que mostrar para os jovens o que aconteceu naquela época e que nunca mais poderá acontecer. Não há diferenças entre brancos e negros. Somos todos humanos. O sangue é o mesmo”.

A situação política da Nigéria preocupa Kawoh, que já retratou em algumas obras seu sentimento de angústia. “Está ocorrendo muitos conflitos e ataques terroristas. Dizem que são motivados pela questão religiosa. Mas não acredito. São políticos”, afirmou.

No próximo dia 14, a Nigéria realizará eleições presidenciais. O atual presidente, Goodluck Jonathan, concorrerá à reeleição. O grupo extremista islâmico Boko Haran tenta controlar o país por meio da força. Os radicais já dominaram 130 cidades e vilarejos, segundo a Anistia Internacional. Os conflitos deixaram 10 mil pessoas mortas no ano passado.

Morando em São Vicente há um ano e meio, Kawoh em breve será pai. O artista plástico levou a esposa para a Nigéria, onde moraram por um tempo e depois retornaram ao Brasil. Ele faz planos de voltar ao seu país de origem, mas não agora. “Meu país não é ruim e não tem só terrorista. A maior parte do conflito acontece no norte e nordeste do país. Lá tem emprego também. Mas o Brasil ainda é melhor, mesmo com problemas de corrupção e violência”, destacou.

Questionado sobre preconceito no Brasil, Kawoh disse que não sofreu. No entanto, teve a palavra ‘macumbeiro’ introduzida em seu vocabulário. Ele disse que as pessoas atribuem o fato de ser negro, africano e usar vestes com temas afros à preferência religiosa. “As pessoas pensam que só porque vim da África devo ser do Candomblé ou da Umbanda. No meu país predomina o islamismo e o cristianismo. Inclusive sou cristão evangélico, mas respeito e convivo com todas as religiões até porque sou artista. É engraçado. Me chamam de macumbeiro. Nem ligo”, disse sorrindo.