Pesquisadores identificam "relógio molecular" que liga idade paterna a riscos metabólicos. / Reprodução/Freepik
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Durante muito tempo, quando se falava em idade e reprodução, quase toda a atenção era voltada às mulheres. A ideia de que o tempo também poderia afetar de forma significativa a fertilidade masculina e a saúde dos filhos era pouco discutida.
Agora, um estudo internacional mostra que o envelhecimento do homem deixa, sim, marcas biológicas claras no esperma, com possíveis efeitos sobre o desenvolvimento das crianças.
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Pesquisadores dos Estados Unidos e da China descobriram que o ARN do esperma, um tipo de material genético que ajuda a regular o funcionamento das células, muda de maneira consistente com a idade do pai.
Essas mudanças funcionam como um verdadeiro “relógio molecular”, capaz de indicar o envelhecimento das células reprodutivas masculinas. O estudo foi publicado na revista científica The EMBO Journal.
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Segundo os cientistas, essa transformação não acontece de forma lenta e gradual. Ela surge quase como uma virada repentina, comparada pelos autores a um “acantilado molecular”. Ou seja, em determinado momento da vida, o padrão do ARN do esperma muda de forma clara e detectável.
Para identificar esse processo, a equipe desenvolveu uma nova técnica de análise genética chamada PANDORA-seq. Esse método permitiu observar tipos de ARN que antes não apareciam nos exames tradicionais. Com isso, os pesquisadores conseguiram enxergar detalhes que ficavam escondidos em estudos anteriores.
Os testes começaram com ratos de laboratório. Neles, foi possível observar uma mudança marcante no ARN do esperma em uma fase específica da vida. Quando a mesma análise foi feita em amostras humanas, o resultado foi muito parecido, indicando que esse fenômeno também ocorre nos homens e não se limita a uma única espécie.
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Um dos achados mais surpreendentes do estudo foi perceber que o ARN do esperma não se deteriora com o tempo, como se pensava. A crença antiga era de que o envelhecimento causaria apenas fragmentação e perda de qualidade.
No entanto, os pesquisadores observaram o oposto: com a idade, fragmentos mais longos de ARN se tornam mais comuns, enquanto os menores diminuem.
Para entender se isso poderia afetar os filhos, os cientistas realizaram experimentos com embriões de ratos. Eles introduziram ARN considerado “velho” e observaram alterações na ativação de genes ligados ao metabolismo e ao funcionamento do cérebro.
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Esses resultados ajudam a explicar dados já conhecidos, como o maior risco de certos distúrbios metabólicos e neurológicos em filhos de pais mais velhos.
Outro ponto importante é onde essas mudanças acontecem. O estudo mostrou que o “relógio molecular” está concentrado na cabeça do espermatozoide, a parte responsável por levar o material genético até o óvulo.
Antes, esse sinal ficava oculto porque a cauda do esperma contém outros tipos de ARN que confundiam as análises. A nova técnica permitiu separar essas regiões e revelar o efeito real da idade.
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A confirmação do mesmo padrão em amostras humanas foi considerada um passo essencial pelos pesquisadores. A integração entre bancos de sêmen, registros clínicos e laboratórios possibilitou essa validação e reforçou a importância da descoberta.
Os cientistas agora buscam identificar quais enzimas provocam essas mudanças no ARN ao longo do tempo. Com isso, no futuro, pode ser possível desenvolver novos exames para avaliar a fertilidade masculina de forma mais precisa e oferecer informações mais claras para quem planeja ter filhos.
Os autores fazem questão de ressaltar que o estudo não pretende desencorajar a paternidade em idades mais avançadas. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre como o envelhecimento do esperma pode influenciar a próxima geração.
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Entender esses mecanismos pode ajudar médicos, famílias e políticas de saúde a tomarem decisões mais informadas, mostrando que o tempo também deixa suas marcas na herança biológica transmitida pelos pais.