Menino da Prainha Branca, em Guarujá, precisa de proteção

Pequeno K.O. perdeu a mãe e bisavó para a doença; família passa necessidade

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29 SET 2020Por Carlos Ratton07h00
K.O perdeu a mãe, Luana Lima (foto), de 35 anos, para o coronavírus. Ele está sob os cuidados da família que precisa de assistênciaFoto: Arquivo Pessoal

Uma situação preocupante na Prainha Branca, em Guarujá. O pequeno K.O, uma criança de apenas seis anos, corre sério risco de ser infectado por Covid-19 e, ainda, por precisar de atenção médica diferenciada - suspensa nos últimos meses - não suportar tratamento intensivo e falecer.

K.O já perdeu a mãe, Luana de Oliveira Lima, de 35 anos, para o coronavírus, e a bisavó, Isabel Edmunda Bento de Oliveira, 86 anos, que foi levada transportada num carrinho de mão.

A vó materna, Mariana de Oliveira, a Mariana da Prainha, de 58 anos, o marido, Wander Domingues, de 54 anos, e mais a tia da criança, Luara Oliveira dos Santos (26 anos), todos moradores do local, não possuem renda e estão impossibilitados de trabalhar por conta do risco de contágio em função da quantidade de turistas que invadem o local todos os finais de semana sem a menor fiscalização.

"Perdi minha mãe e minha filha, mãe de K, praticamente ao mesmo tempo. Minha mãe foi carregada num carrinho de mão até a estrada para pegar uma condução até o hospital de Bertioga, onde faleceu. Minha filha também foi vítima dessa doença e me deixou o neto para cuidar. A situação aqui na Prainha é grave. Famílias inteiras, como a minha, passando necessidades. Não posso colocar meu neto e minha família em risco. Chega de mortes", informa Mariana desesperada. Vou tentar vender coisas minhas para pagar algumas contas e comprar comida", desabafa Mariana.

Famílias

O caso da família de K.O não é isolado. A Prainha Branca possui cerca de 100 famílias (400 pessoas) e 60 comerciantes. Até agora, cinco pessoas - três idosos e dois jovens de 35 e 40 anos - foram vítimas fatais de Covid-19. Os moradores moram próximos e dependem do convívio social para superar a falta de estrutura urbana no verdadeiro paraíso escondido, situado na reserva ambiental da Serra do Guararú.

Prainha é parte de uma imensa área de Mata Atlântica, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat).

Turistas lotam o local sem máscaras e sem fiscalização, mesmo com acessos difíceis - uma trilha pela Mata Atlântica (construída pelos moradores) de cerca de 40 minutos de caminhada, partindo da balsa Guarujá-Bertioga, e por barco, atravessando o canal que divide as cidades.

"Tem camping lotado. Estamos tentando pedir reforço às prefeituras das duas cidades (Guarujá e Bertioga). Existe uma base da polícia militar que nunca tem policial. Além da pandemia, estamos expostos às drogas e à violência todos os dias do ano", conta uma moradora, que não suporta mais a situação.

Ameaças

Todos estão com muito medo, pois são ameaçados quando alertam os frequentadores sobre a necessidade de proteção. O posto de saúde construído pelos moradores no local há meses não tem médico. O mais próximo fica na Praia do Perequê, cerca de 15 quilômetros e uma hora e meia de condução.

Também só tem duas alternativas de hospitais: o Hospital Santo Amaro, localizado a 30 quilômetros e com pouca opção de transporte público, e o Hospital Municipal de Bertioga, que fica a cerca de 10 quilômetros após atravessar de balsa ou barco, levando também mais de uma hora para chegar.

Acesso

Outro problema que não se resolve. Os moradores lutam há décadas pelo uso da uma estrada particular - único acesso viário entre a Rodovia Ariovaldo de Almeida Viana (conhecida como Estrada Guarujá-Bertioga). Anos atrás, surgiu a ideia de um desvio de cerca de 100 metros na estrada, garantindo rapidez no percurso às famílias, mas ela não foi adiante.

O Município chegou a firmar um termo administrativo com o proprietário, ocorrido por solicitação do Ministério Público (MP), visando liberar o acesso de veículos à praia por sua propriedade, mas o acordo nunca foi respeitado.

Cadastro

A Secretaria de Saúde (Sesau) de Guarujá informa que o garoto não está cadastrado junto à rede e, por isso, é necessário inseri-lo. A Sesau entrará em contato com a família para verificar as necessidades da criança, e também está à disposição através do telefone: 3308 7790, ou no endereço Avenida Santos Dumont, 640, no bairro Santo Antônio, de segunda a sexta-feira das 8 às 18 horas.

Afirma que os moradores têm a Unidade de Saúde da Família (Usafa) do Perequê de retaguarda, de segunda a sexta-feira das 8 às 17 horas, e uma médica quinzenalmente para realizar o atendimento à população, assim como uma técnica de enfermagem e agentes comunitários de saúde, que visitam a localidade periodicamente.

Em julho, foi feita uma ampla ação de testagem para a Covid-19 na Prainha Branca e a Guarda Civil também atua no local, em complemento às ações de Segurança Pública do Estado.

Esclarecimento

A pedido da família, a Reportagem do Diário do Litoral esclarece que K.O. não contraiu a doença, é saudável e não precisa de nada, apenas corre risco em função da quantidade de pessoas que frequentam a praia todos os finais de semana sem proteção. Também que a família recebe duas cestas básicas mensais doadas por duas pessoas da comunidade e que a única dificuldade é a de voltar a trabalhar com tranquilidade e de forma segura.