Ipea admite erro e diz que 26%, e não 65%, acham que roupa justifica ataque

O estudo gerou reações que envolveram desde a presidente Dilma Rousseff até a funkeira Waleska Popozuda

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04 ABR 201420h55

O dado mais comentado da pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre violência contra as mulheres estava errado. Depois do estudo gerar reações que envolveram desde a presidente Dilma Rousseff até a funkeira Waleska Popozuda, o Ipea admitiu nesta sexta-feira, 4, em uma nota, que o índice mostrando que 65,1% dos brasileiros acreditaria que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas" estava trocado e que, na verdade, 26% dos entrevistados concordam totalmente ou parcialmente com a afirmação.

No texto, os pesquisadores do Instituto, Rafael Osório - diretor do Departamento de Estudos e Políticas Sociais - e Natália Fontoura, coordenadora de Igualdade de Gênero, explicam que houve uma troca entre os gráficos dessa questão e de outra, onde a afirmação era que "mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar". "A correção da inversão dos números entre as duas das 41 questões da pesquisa enfatizadas acima reduz a dimensão do problema anteriormente diagnosticado no item que mais despertou a atenção da opinião pública", diz o texto.

Os próprios pesquisadores admitiram a surpresa, ao divulgar a pesquisa, com um índice tão alto. Ainda assim, o Ipea levou uma semana para descobrir o erro. Ontem, logo depois de assinar a nota, Rafael Osório pediu demissão da diretoria do departamento.

O resultado errado foi o que teve maior destaque na pesquisa e chamou a atenção inclusive fora do Brasil. Logo depois da divulgação uma campanha na internet, iniciada pela jornalista Nana Queiroz, se tornou viral e obteve o apoio de mulheres e homens em todo o país, incluindo atrizes, atores e outros artistas posando com cartazes com variações sobre a frase "Eu Não Mereço Ser Estuprada".

Dilma Rousseff usou sua conta na rede social Twitter para apoiar a campanha (Foto: Douglas Magno/O Tempo)

Até mesmo a ministra de Políticas para Mulheres divulgou a sua foto e a presidente Dilma Rousseff usou sua conta na rede social Twitter para apoiar a campanha. Jornais e sites no exterior, como o inglês The Guardian e o americano The Huffington Post deram destaque à pesquisa e à campanha. Hoje pela manhã, Nana deu uma entrevista ao programa da BBC Londrina Women's Hour (Hora da Mulher). No Palácio do Planalto, o erro do instituto foi visto com espanto, mas evitou-se qualquer tipo de comentário

No resultado correto, são 26% os que concordam com a afirmação de que uma mulher de roupas curtas merece ser atacada - 13,2% concordam totalmente e 12,8% , parcialmente. O número ainda é muito alto, mas consideravelmente inferior ao número que causou uma enorme reação nacional. Apesar disso, outro dado chocante da pesquisa está correto, de acordo com o IPEA: 58,5% dos entrevistados concordaram que "se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros". E, com a descoberta do erro, sabe-se agora que 65,1% dos entrevistados acredita que mulheres que são agredidas e continuam com o parceiro gostam de apanhar.

Houve, ainda, outros gráficos trocados, segundo a nota do Ipea. Nesse caso, com duas perguntas semelhantes. Na frase "O que acontece com o casal em casa não interessa aos outros", 13,1% discordaram totalmente e 5,9%, parcialmente. Diante da afirmação "Em briga de marido e mulher não se mete a colher", 11,1% discordaram totalmente e 5,3% discordaram parcialmente.

"As conclusões gerais da pesquisa continuam válidas, ensejando a aprofundamento das reflexões e debates da sociedade sobre seus preconceitos", diz a nota do Ipea. "Pedimos desculpas novamente pelos transtornos causados e registramos nossa solidariedade a todos os que sensibilizaram contra a violência e o preconceito e em defesa da liberdade e segurança das mulheres".