Exumação do corpo de Jango levou 18 horas

Os peritos foram extremamente cautelosos na abertura do jazigo, seguida da coleta de amostras do ar e liberação dos gases, antes do arrombamento da gaveta tumular

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14 NOV 201322h50

Os peritos já haviam avisado familiares e autoridades de que o processo de exumação do corpo do ex-presidente João Goulart, iniciado na quarta-feira, 13, poderia demorar bem mais do que o previsto. Havia a possibilidade de se encontrar umidade, água acumulada e mesmo um caixão decomposto dentro do jazigo da família, no Cemitério Jardim da Paz, em São Borja (RS). Talvez houvesse dificuldade em descobrir em que gaveta do jazigo estariam os restos mortais de Jango, já que outros parentes estão enterrados no local. Ou talvez os despojos não pudessem sequer ser transportados em aeronaves. Como se diz no meio, exumar é escavar o imponderável

Mas, mesmo considerando o imponderável, as 18 horas consumidas numa operação ininterrupta dentro do cemitério, da abertura do mausoléu até a retirada do caixão, acabaram superando todas as expectativas. O que havia começado às 7 horas de quarta terminou às 2 horas de quinta-feira, 14, com peritos, equipes de apoio e familiares exaustos - o que era visível na cerimônia em Brasília

Orientados pelo professor Jorge Caridad Perez, reitor da Universidade de Havana, em Cuba, considerado uma autoridade em medicina forense, os peritos foram extremamente cautelosos na abertura do jazigo, seguida da coleta de amostras do ar e liberação dos gases, antes do arrombamento da gaveta tumular. Não encontraram excesso ou água acumulada, o que é bom para as análises.

Também fez parte dos trabalhos iniciais a inspeção ocular de todo o jazigo, incluindo o uso de uma microcâmera para dar uma primeira ideia do estado do caixão, enterrado no local há 37 anos. "O caixão estava em bom estado. Foi comprado na Argentina, onde Jango faleceu", comentava ontem o prefeito de São Borja, Farelo de Almeida.

Os restos mortais do ex-presidente da República João Goulart foram recebidos hoje (14) com honras militares, pela presidenta Dilma Rousseff (Foto: Agência Brasil)

O processo de exumação do ex-presidente vem sendo acompanhado, por sugestão da família, por um de seus netos, o jovem médico João Marcelo Goulart. "Não posso falar pelos peritos, mas a demora se explica: cada amostra de ar recolhida, e foram inúmeras, significa uma tarefa de hora e meia. São operações muito complexas e os peritos estão seguindo estritamente os protocolos." Além dos peritos e da coordenação do delegado Amaury de Souza Jr., a exumação contou com observadores brasileiros e estrangeiros, além do acompanhamento da Cruz Vermelha.

Feita a exumação, parte-se para nova etapa: será realizada nos próximos dias a retirada das amostras para exames de caráter antropológico, genético e toxicológico. Recolhidas as amostras, os restos mortais retornam a São Borja, e inicia-se a fase da análise científica propriamente dita. Paralelamente, investigações documentais e testemunhais vêm sendo feitas, como elementos de suporte para se chegar a um laudo conclusivo, que esclareça se Jango morreu ou não envenenado.