Após a determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o recolhimento de um lote da água mineral Crystal devido à presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa, muitos consumidores passaram a se perguntar o que acontece no organismo ao ingerir uma água contaminada. A médica nutróloga Janaina Gondim explica como o corpo reage à entrada desse tipo de microrganismo e quais são os possíveis riscos à saúde.
A resposta envolve uma série de mecanismos de defesa que trabalham constantemente para impedir a entrada e a proliferação de microrganismos no corpo humano. Da boca ao intestino, a água percorre um caminho repleto de barreiras naturais capazes de neutralizar grande parte das bactérias ingeridas.

O trajeto da água pelo organismo
O primeiro contato ocorre na boca. Após ser consumida, a água passa pelo esôfago e chega ao estômago em poucos segundos. Embora pareça um percurso simples, o organismo já inicia nesse momento um conjunto de ações de proteção contra agentes potencialmente prejudiciais.
O papel do estômago na defesa do corpo
O estômago é considerado uma das principais barreiras naturais contra microrganismos presentes em alimentos e bebidas. Isso ocorre graças ao ácido gástrico, uma substância altamente ácida responsável por auxiliar na digestão e eliminar diversos tipos de bactérias, vírus e outros organismos.
Segundo a médica nutróloga Janaina Gondim, o ácido gástrico funciona como uma espécie de filtro biológico do organismo. “O pH do estômago é extremamente baixo, o que cria um ambiente hostil para muitos microrganismos. Grande parte das bactérias ingeridas não consegue sobreviver a essa acidez e acaba sendo destruída antes mesmo de alcançar o intestino”, explica.
Mesmo assim, nem todos os microrganismos são destruídos nessa fase. Dependendo das características da bactéria, da quantidade ingerida e das condições de saúde da pessoa, parte deles pode sobreviver à acidez estomacal e seguir pelo sistema digestivo.
Outro fator que pode interferir nesse processo é o uso de medicamentos que reduzem a acidez do estômago, além de condições que afetam o sistema imunológico. Nessas situações, as defesas naturais do organismo podem se tornar menos eficazes.
A microbiota intestinal e a interação com as bactérias
Depois de passar pelo estômago, o conteúdo segue para o intestino, região que abriga trilhões de microrganismos que formam a chamada microbiota intestinal. Essa comunidade de bactérias desempenha funções importantes na digestão, na absorção de nutrientes e até na proteção contra invasores externos.
É nesse ambiente que ocorre boa parte da interação entre os microrganismos ingeridos e o organismo humano.
Quais são os riscos da Pseudomonas aeruginosa?
No caso da Pseudomonas aeruginosa, especialistas ressaltam que ela não está entre as bactérias mais frequentemente associadas a surtos de doenças transmitidas por alimentos, como acontece com a Salmonella e algumas cepas de Escherichia coli.
De acordo com a nutróloga, a Pseudomonas aeruginosa é considerada uma bactéria oportunista. “Em indivíduos saudáveis, a ingestão eventual da bactéria nem sempre resulta em doença. O maior motivo de preocupação está relacionado a pessoas com imunidade comprometida, pacientes hospitalizados, idosos ou indivíduos com doenças crônicas, que podem apresentar maior suscetibilidade a infecções”, afirma a médica.
Apesar disso, a presença da bactéria em um produto destinado ao consumo humano configura uma irregularidade sanitária e exige medidas preventivas para evitar possíveis riscos à saúde, principalmente entre grupos mais vulneráveis.
Segundo a Anvisa, o lote recolhido da água Crystal apresentou resultado positivo para a bactéria em análises laboratoriais e na contraprova realizada posteriormente. A medida adotada pela agência se restringe ao lote identificado pelas autoridades sanitárias.
O que acontece com a bactéria após a ingestão?
Em pessoas saudáveis, os mecanismos naturais de defesa do organismo costumam atuar de forma contínua para eliminar microrganismos ingeridos. Quando não conseguem se instalar no corpo, essas bactérias tendem a ser eliminadas naturalmente ao longo do processo digestivo.
“Na maioria dos casos, quando a bactéria não encontra condições favoráveis para se multiplicar ou invadir tecidos, ela simplesmente segue o trânsito intestinal e é eliminada pelas fezes. Isso ocorre graças à ação conjunta do ácido gástrico, da microbiota intestinal e do sistema imunológico, que trabalham continuamente para impedir a colonização por microrganismos potencialmente nocivos”, conclui Dra. Janaina.
