Uma das obras de engenharia mais emblemáticas da história do litoral de São Paulo está prestes a entrar em uma nova fase.
A Autoridade Portuária de Santos (APS) lançou o edital para a concessão do Complexo Hidrelétrico de Itatinga, localizado em Bertioga, abrindo caminho para investimentos estimados em centenas de milhões de reais e para a transformação de uma área histórica em um polo de turismo, energia e sustentabilidade.
O contrato, avaliado em 717,5 milhões de reais em receita operacional bruta projetada ao longo da concessão, terá duração de 20 anos, com possibilidade de prorrogação.
As propostas serão abertas no dia 17 de agosto e a escolha da empresa vencedora ocorrerá pelo critério de técnica e preço.
A futura concessionária assumirá a gestão completa do complexo, que engloba a Pequena Central Hidrelétrica (PCH) de Itatinga, a linha de transmissão de energia e a histórica Vila de Itatinga, um conjunto preservado de construções que remonta ao início do século passado.

Patrimônio histórico escondido em meio à Mata Atlântica
Construída entre 1904 e 1910, a Usina Hidrelétrica de Itatinga é considerada uma das primeiras usinas hidrelétricas de fio d’água no Brasil.
Ao longo de mais de 100 anos, ela desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento do Porto de Santos, garantindo energia estável para as operações portuárias em diferentes períodos da história do país.
Localizada em uma área cercada por Mata Atlântica totalmente preservada, a usina guarda características únicas.
O acesso ao local já é uma atração à parte, sendo necessário primeiro percorrer o Canal de Bertioga em uma viagem de aproximadamente uma hora e meia de lancha.
Essa experiência única faz muitos considerarem Itatinga uma espécie de viagem no tempo escondida entre as montanhas e o litoral de São Paulo.
Vila histórica poderá ganhar hotéis e atrações turísticas
Além da usina, a concessão inclui a Vila de Itatinga, formada por 61 casas históricas, que incluem igreja, escola, padaria, clube esportivo e áreas de convivência.
O edital prevê que a futura gestora promova a revitalização completa dos imóveis para utilização em atividades turísticas e de hotelaria, criando um novo destino voltado ao turismo histórico, cultural e ecológico.
A expectativa é que o projeto aproveite todo o potencial da região para atrair visitantes interessados em patrimônio industrial, turismo ferroviário, ecoturismo e experiências ligadas à história do Porto de Santos.
Especialistas apontam que poucas localidades no Brasil reúnem uma usina centenária em pleno funcionamento, uma vila operária preservada e um sistema de transporte histórico ainda ativo.

Modernização energética e foco no hidrogênio verde
Notavelmente, a preservação do patrimônio será um dos requisitos mais rigorosos do contrato, mas a modernização da estrutura energética também estará no centro do projeto.
Além da modernização de aproximadamente 30 quilômetros de linhas de transmissão, a concessionária é obrigada a adicionar mais capacidade à usina, de uma capacidade instalada existente de 15 megawatts para um total de 18 megawatts.
Melhorias serão planejadas em vários setores (civil, hidráulico, eletromecânico) a um custo de aproximadamente 200 milhões de reais.
Uma das novidades do projeto é a exigência de estudos voltados à produção de energia renovável e ao desenvolvimento de soluções ligadas ao hidrogênio verde, tecnologia considerada estratégica para a transição energética mundial.
A APS mantém que o fornecimento de energia para o Porto de Santos terá prioridade absoluta sob o contrato, embora a energia excedente gerada possa ser livremente comercializada pelo operador no mercado.
Porto de Santos aposta alto na transição energética
Para a Autoridade Portuária de Santos, a concessão representa uma oportunidade única de unir preservação histórica, desenvolvimento econômico e inovação ambiental.
Em comunicado, o presidente da APS, Anderson Pomini, afirmou que a modernização da usina e a possibilidade de integração com iniciativas de hidrogênio verde reforçam o papel do Porto de Santos na agenda de sustentabilidade global e na busca por fontes energéticas mais limpas.
Os reguladores esperam que a concessão eleve Itatinga como um exemplo do uso do patrimônio histórico com geração de energia renovável, produzindo uma nova vocação econômica para uma área responsável pela história do maior porto da América Latina por mais de cem anos.
Assumindo que o cronograma se mantenha no caminho certo, a definição da empresa responsável pela gestão do complexo ocorrerá ainda neste semestre, marcando o início de um dos mais ambiciosos projetos de revitalização patrimonial e energética do litoral paulista.
