A 5.290 metros de altitude, esta vila revela uma das visões mais extraordinárias do universo na Terra

A mais de 5 mil metros de altitude, uma vila transformou a escuridão em janela para o universo.

A 5.290 metros de altitude, esta vila revela uma das visões mais extraordinárias do universo na Terra - hanle ladakh índia

Visão das estrelas na Índia / Vandana K

Quando a noite cai, as luzes começam a desaparecer. Em algumas hospedagens, visitantes recebem lanternas vermelhas logo na chegada. Elas substituem a tradicional bebida de boas-vindas por um motivo simples: preservar a visão noturna para aquilo que acontece depois que o céu escurece.

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Pouco a pouco, as montanhas mergulham na escuridão. Então, milhares de estrelas surgem no horizonte. Em seguida, aparece a Via Láctea, formando uma faixa luminosa que atravessa o céu de ponta a ponta. Para muitos viajantes, é a primeira vez que o universo parece tão próximo.

A 5.290 metros de altitude, Hanle, nos Himalaias Indianos tornou-se um dos lugares mais impressionantes do planeta para observar o céu noturno. Além disso, a pequena comunidade encontrou uma forma incomum de transformar a escuridão em oportunidade, criando uma economia que hoje gira em torno das estrelas.

A vila onde o céu é a principal atração

Em uma época em que grandes cidades permanecem iluminadas durante toda a madrugada, Hanle segue na direção oposta.

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Os moradores ajudam a preservar um dos céus mais escuros já registrados na escala de Bortle, sistema usado para medir a qualidade do céu noturno. Por isso, a região recebeu em 2022 o reconhecimento como a primeira Reserva de Céu Escuro da Índia.

A área protegida reúne seis povoados e mais de mil quilômetros quadrados dedicados à preservação da escuridão natural. Além disso, o local abriga o Observatório Astronômico Indiano, considerado um dos mais importantes centros astronômicos do país.

As condições naturais ajudam a explicar essa fama. A região registra mais de 300 noites sem nuvens por ano, possui baixa umidade, pouca poluição luminosa e uma atmosfera extremamente limpa para observações astronômicas.

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Por causa dessas características, turistas, fotógrafos e astrônomos viajam milhares de quilômetros apenas para passar algumas horas olhando para o céu.

Confira a galeria de fotos do céu na vila

A vila onde a Via Láctea parece mais próxima

Os relatos de quem visita Hanle costumam seguir o mesmo padrão.

Primeiro vem o silêncio. Depois, a escuridão quase absoluta. Por fim, surge um céu tão carregado de estrelas que parece desafiar a realidade.

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Foi exatamente essa sensação que impressionou a profissional de marketing Shruti Sharma durante uma visita à região.

“Quando vi a Via Láctea a olho nu, pensei: ‘Que magia é essa?’”, relatou em entrevista à BBC.

A experiência se tornou ainda mais especial porque muitos visitantes chegam sem imaginar o que encontrarão. Diferentemente de observatórios tradicionais, onde a atração principal está nos equipamentos, em Hanle o espetáculo acontece acima da cabeça de qualquer pessoa.

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Em noites especialmente favoráveis, observadores conseguem visualizar galáxias distantes, chuvas de meteoros, a luz zodiacal e outros fenômenos celestes que raramente podem ser vistos com tanta nitidez.

Os moradores que passaram a trabalhar olhando para as estrelas

O crescimento do astroturismo transformou a rotina da comunidade.

Nos últimos anos, moradores receberam treinamento para atuar como “astroembaixadores” ou “embaixadores da astronomia”, responsáveis por apresentar o céu aos visitantes.

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Hoje, muitos deles hospedam turistas em suas próprias casas e conduzem sessões de observação utilizando telescópios.

Segundo o Instituto Indiano de Astrofísica, o programa foi criado para envolver a população local na preservação da reserva e garantir que os benefícios econômicos fossem compartilhados pela própria comunidade.

O resultado apareceu rapidamente.

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O número de hospedagens familiares cresceu de poucas unidades para cerca de 70. Além disso, a atividade ajudou a gerar renda em uma região remota onde as oportunidades de trabalho eram limitadas.

A moradora que trocou a rotina doméstica pelo telescópio

Entre as histórias que simbolizam essa transformação está a de Dolkar.

Ela adaptou sua casa de cinco quartos para receber visitantes e passou a trabalhar diretamente com observação astronômica.

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Durante o dia, prepara refeições caseiras para os hóspedes. À noite, permanece ao lado do telescópio ajudando turistas a explorar o céu profundo.

“Durante o dia, preparo as refeições e cuido da casa. À noite, até a meia-noite, ajudo os turistas na observação das estrelas e na exploração do céu profundo com meu telescópio”, contou à BBC.

Em dias comuns, ela recebe cerca de 20 visitantes. Nos períodos mais movimentados, esse número já ultrapassou 50 pessoas em uma única noite.

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Enquanto isso, outras mulheres encontraram na astronomia uma profissão inesperada.

Padma Chamchot, uma das astroembaixadoras da região, afirmou que o projeto abriu oportunidades que dificilmente existiriam sem o turismo ligado ao céu.

“Este é um emprego dos sonhos: aprendo sobre as estrelas todos os dias, sustento a mim e meus pais, e conheço turistas do mundo todo”, explicou.

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O monge que guia visitantes pelo universo

As estrelas também passaram a fazer parte da rotina do mosteiro local.

Construído no século XVII, o templo continua sendo um dos símbolos da região. Contudo, um de seus integrantes assumiu uma função pouco comum.

Durante o dia, Nawang Tsoundu dedica seu tempo às atividades religiosas. Quando a noite chega, ele passa a conduzir observações astronômicas para visitantes.

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“A astronomia sempre foi parte da prática budista. Os monges usavam as estrelas para marcar festivais e datas sagradas”, afirmou também à BBC.

Segundo ele, a curiosidade em recuperar essa tradição acabou aproximando ciência e cultura dentro da própria comunidade.

Uma tradição muito mais antiga que os telescópios

Apesar da fama recente, a relação da população local com o céu não começou com os observatórios.

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Durante gerações, pastores utilizavam as estrelas para orientação durante deslocamentos noturnos. Além disso, conhecimentos ligados às constelações eram transmitidos entre famílias e faziam parte da vida cotidiana.

Kesang Dorjey, um dos principais astroembaixadores da região, afirma que o programa ajudou a recuperar essa conexão.

“Nossos antepassados usavam as estrelas para medir o tempo e se orientar durante as travessias com seus rebanhos, mas perdemos essa conexão ao longo do tempo”, explicou.

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Agora, moradores também trabalham para registrar histórias antigas contadas pelos mais velhos da comunidade.

Segundo Dolkar, algumas dessas narrativas apresentam semelhanças surpreendentes com explicações astronômicas modernas.

“Um dos mais velhos me ensinou a observar certas estrelas como sinal do início do plantio de verão. Depois descobri que esse padrão é chamado de triângulo de verão”, contou.

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O desafio de proteger a escuridão

O sucesso turístico trouxe benefícios, mas também levantou preocupações.

Em uma única noite de junho, mais de 100 pessoas se reuniram diante da casa de um dos guias para observar as estrelas. Como consequência, ele precisou trabalhar até as 2h30 da manhã.

Por isso, a comunidade adotou medidas rigorosas para preservar aquilo que tornou Hanle conhecida.

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Os moradores reduzem a iluminação após o pôr do sol, utilizam cortinas blackout e evitam luzes desnecessárias. Além disso, existem restrições para iluminação externa e medidas voltadas à redução da poluição luminosa.

A preocupação é simples: se a escuridão desaparecer, a principal atração da vila também desaparece.

Um espetáculo que quase sumiu do planeta

Em muitas regiões do mundo, a Via Láctea já não pode mais ser vista a olho nu.

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O avanço da iluminação artificial transformou o céu estrelado em uma experiência cada vez mais rara.

Hanle preserva justamente o contrário.

Ali, a escuridão continua sendo um patrimônio compartilhado pela comunidade. Além disso, ela sustenta tradições, gera renda para dezenas de famílias e atrai visitantes fascinados por um cenário que parece ter saído de outro planeta.

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Quando as luzes finalmente se apagam e o universo assume o controle da paisagem, fica fácil entender por que tanta gente atravessa longas distâncias para chegar até a vila.

Afinal, poucos lugares da Terra ainda permitem contemplar as estrelas da forma como a humanidade enxergou o céu durante milhares de anos.