Denúncia do Diário do Litoral movimenta Câmara e Prefeitura de Santos

Violência contra mulheres e crianças no Centro e região foi tema de reportagem no último domingo

Comentar
Compartilhar
26 MAR 2017Por Carlos Ratton10h00
Secretaria de Segurança irá se reunir com as policias civil e militar para traçar estratégias de segurança na regiãoSecretaria de Segurança irá se reunir com as policias civil e militar para traçar estratégias de segurança na regiãoFoto: Matheus Tagé/DL

A realidade dramática de mulheres e crianças que moram e brincam nas ruas dos bairros do Paquetá, área do mercado, vilas Mathias, Nova e cercanias, localizados próximos ao Centro de Santos, denunciada no último domingo pelo Diário do Litoral foi visto com preocupação pela Câmara e Prefeitura de Santos.

A vereadora Telma de Souza (PT) irá fazer uma reunião emergencial, na próxima quarta-feira (29), às 14h30, na Câmara, com Polícia e Prefeitura, por intermédio da Comissão dos Direitos da Cidadania e dos Direitos Humanos. Telma é presidente da comissão.

“A reunião ampliada servirá para definir linhas de ação. Vamos definir a data com as delegacias de Defesa da Mulher e da Infância e Juventude; Guarda Municipal, coordenadorias municipais de Políticas para Mulheres e de Infância e Juventude; conselhos da Criança e Adolescente, de Segurança e Tutelar Zona Central, além do representante da Secretaria de Segurança do Estado”, disse a parlamentar por intermédio de sua assessoria de imprensa.

No mesmo dia

Além de Telma, o também vereador Chico Nogueira (PT) decidiu realizar uma reunião pública, às 18 horas, no Auditório Zeny de Sá Goulart, da Câmara. Serão discutidos temas que envolvem o cotidiano em bairros onde as políticas públicas não chegam para garantir qualidade de vida para a população.

“Não podemos mais conviver com tantas diferenças e só com o empenho de toda a sociedade vamos diminuir os altos números de violência registrados nas regiões mais pobres da nossa cidade”, afirma Nogueira.

Para este evento, serão convidados representantes do Ministério Público Estadual, das áreas de Educação e Lazer, Habitação Popular e Direitos Humanos, além do Movimento de Cortiços do Paquetá. Também participam da organização do evento  o Coletivo de Mulheres Maria Vai com as Outras (que participou da reportagem) e mulheres da ­comunidade.

Prefeitura

A Secretaria de Segurança de Santos informou que irá se reunir com as polícias civil e militar para traçarem estratégias visando aumentar a segurança na região. A data ainda não foi definida.

Com relação à denúncia de falta de políticas públicas para os locais necessárias para minimizar a violência, a Administração ressalta que dentre os projetos está o Centro Turístico, Cultural e Esportivo da Vila Nova, que atualmente tem 80% das obras concluídas.

O espaço irá suprir parte da demanda por lazer na Região Central, contemplando especialmente crianças e adultos da Vila Nova, Paquetá e Centro Histórico.

Mulheres assediadas

A Reportagem do último dia 19 mostrou que, principalmente à noite e nos finais de semana, mulheres e crianças sofrem assédio de marginais.

O Diário do Litoral foi a fundo e descobriu histórias de várias mulheres que moram na região e resolveram dar depoimento desde que suas identidades fossem preservadas. A descoberta  mostra que viver nesses bairros é mais do que desafiar a sorte, é driblar a morte que está em cada esquina, cada imóvel abandonado e rua mal iluminada.

As mulheres entrevistadas, que pediram que suas identidades fossem preservadas, revelaram perseguições visando estupro, invasões de imóveis e descarte de vítimas, como ocorreu em 5 de março, quando uma jovem de 21 anos, identidade desconhecida, foi jogada com o carro ainda em movimento na Rua São Francisco, no Centro, após ter escapado de estupro.

Ela teria dito aos policiais que a socorreram que os marginais estavam com uma criança dentro do veículo, que teria sumido dias antes na região do Mercado Municipal. A situação não teve repercussão e nem registro na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).       

Confirmação

O drama das mulheres foi confirmado por Dida Dias e Luciana Jorge, do coletivo feminista Maria Vai com as Outras, formado em outubro do ano passado com objetivo de lutar pelos direitos e combater a violência contra as mulheres.

Elas contaram que, sem alternativas, mulheres e crianças deixaram de conversar e brincar na rua. As famílias vivem trancadas nos cômodos onde moram.

Revelaram que tudo ocorre por conta da falta de políticas públicas e investimentos no Centro de Santos, abandonado por sucessivas administrações municipais, incluindo a atual.

Disseram ainda que a área do Paquetá e do mercado servem não só como armadilha, mas como desova de vítimas de estupro. Tudo em função da falta de iluminação, de câmeras públicas de vigilância, efetivos da Guarda Municipal, da Polícia Militar, equipamentos de lazer, esportivos e culturais.

As integrantes do Coletivo não poupam críticas à falta de investimentos e equipamentos públicos na região mais frágil e vulnerável do Município – entre a linha férrea (hoje Veículo Leve sobre Trilhos) e o Porto de Santos.

“Nem à padaria pode-se ir após às 18 horas. Quem gosta de cometer crimes, se aproveitar da fragilidade das mulheres e da inocência das crianças, encontra ambiente propício no Paquetá e região”, contou Luciana Jorge.

Diferença

Dida Dias não se conteve em lembrar da diferença entre a Santos de antes e depois da linha do VLT. Ela aponta as contradições com um lado, onde existe lazer, espaços culturais, mais opções de transporte, iluminação, segurança, zeladoria e comércio variado, e o outro.

“A região serve quase como desova de pessoas vítimas de violência. Santos é a melhor cidade para se viver, onde? Se não houver políticas públicas urgentes voltadas para a região, veremos muitos casos semelhantes a da pequena Carlinha (Carla Barbosa)”, acredita Dida.  

Ela vai mais longe. Descobriu que não são poucos os casos de homens de outros bairros da Cidade, principalmente os mais sofisticados, que se dirigem ao Centro e imediações em busca de drogas e, principalmente, de ‘presas fáceis’.

Segundo conta, “eles buscam meninas para usar e jogar fora. Para eles, no Centro e bairros carentes moram apenas mulheres sem valor, sem dignidade, que não merecem respeito”, finaliza.