Uma das receitas mais tradicionais da gastronomia brasileira enfrenta um impasse burocrático que ameaça a sua continuidade no mercado. A linguiça Blumenau podem desaparecer das prateleiras caso produtores e órgãos reguladores não cheguem a um acordo sobre as novas diretrizes de fiscalização.
O embutido entrou na mira de uma norma federal recém-adotada pelo governo catarinense. A receita é símbolo da colonização alemã em Santa Catarina e mantém sua fórmula intacta há mais de 125 anos.
A crise começou após o estado ratificar as exigências da Instrução Normativa nº 4/2000 do Ministério da Agricultura. O texto determina um teto de 30% de gordura para embutidos dessecados. O problema é que o processo de fabricação da linguiça Blumenau é estritamente artesanal.
Embora o produto saia da produção com índices de gordura, o tempo de cura e defumação elimina a umidade natural da carne. Essa perda de água provoca uma concentração química dos nutrientes, elevando o percentual lipídico final nas análises laboratoriais e enquadrando o alimento como irregular.
Linguiça vai ou fica?
Na última quarta-feira (3), uma reunião entre produtores e a Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária decidiu que os técnicos do governo deveriam redigir um novo documento para suspender as alterações impostas em maio. Com duração de 120 dias, a suspensão traz alívio temporário aos empresários catarinenses.
Descaracterização das linguiças
O desaparecimento ou a alteração da receita original impactaria a economia do Vale e do Alto Vale do Itajaí. A iguaria possui uma cadeia produtiva que engloba cerca de 20 fabricantes homologados, responsáveis pela produção de 2 milhões de unidades por ano.
Fabricantes argumentam que a aplicação da lei descaracterizaria um patrimônio cultural, que exige o uso de carne suína, toucinho, alho, sal e pimenta branca.
O imbróglio ganhou forte repercussão política e empresarial na região. O empresário Luciano Hang protestou contra as novas exigências técnicas, defendendo que a burocracia não pode sufocar a herança dos imigrantes e os empregos locais.
Diante do risco de paralisação das fábricas, uma mesa setorial composta pelo Ministério da Agricultura, Ministério Público e a Cidasc discute uma saída jurídica. A meta é criar uma regulamentação de identidade específica para proteger produtos de origem controlada, garantindo que o embutido sobreviva às exigências de segurança alimentar.






