Crise suína? Entenda por que as linguiças centenárias brasileiras correm risco de desaparecer

O impasse técnico sobre limite de gordura exigido por lei federal gera pânico de mercado em SC

Imagem genérica de produção de linguiças

As linguiças centenárias correm risco de ter receita alterada por determinação federal/Pexels

Uma das receitas mais tradicionais da gastronomia brasileira enfrenta um impasse burocrático que ameaça a sua continuidade no mercado. A linguiça Blumenau podem desaparecer das prateleiras caso produtores e órgãos reguladores não cheguem a um acordo sobre as novas diretrizes de fiscalização.

O embutido entrou na mira de uma norma federal recém-adotada pelo governo catarinense. A receita é símbolo da colonização alemã em Santa Catarina e mantém sua fórmula intacta há mais de 125 anos.

A crise começou após o estado ratificar as exigências da Instrução Normativa nº 4/2000 do Ministério da Agricultura. O texto determina um teto de 30% de gordura para embutidos dessecados. O problema é que o processo de fabricação da linguiça Blumenau é estritamente artesanal.

Embora o produto saia da produção com índices de gordura, o tempo de cura e defumação elimina a umidade natural da carne. Essa perda de água provoca uma concentração química dos nutrientes, elevando o percentual lipídico final nas análises laboratoriais e enquadrando o alimento como irregular.

Linguiça vai ou fica?

Na última quarta-feira (3), uma reunião entre produtores e a Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária decidiu que os técnicos do governo deveriam redigir um novo documento para suspender as alterações impostas em maio. Com duração de 120 dias, a suspensão traz alívio temporário aos empresários catarinenses.

Descaracterização das linguiças

O desaparecimento ou a alteração da receita original impactaria a economia do Vale e do Alto Vale do Itajaí. A iguaria possui uma cadeia produtiva que engloba cerca de 20 fabricantes homologados, responsáveis pela produção de 2 milhões de unidades por ano.

Fabricantes argumentam que a aplicação da lei descaracterizaria um patrimônio cultural, que exige o uso de carne suína, toucinho, alho, sal e pimenta branca.

O imbróglio ganhou forte repercussão política e empresarial na região. O empresário Luciano Hang protestou contra as novas exigências técnicas, defendendo que a burocracia não pode sufocar a herança dos imigrantes e os empregos locais.

Diante do risco de paralisação das fábricas, uma mesa setorial composta pelo Ministério da Agricultura, Ministério Público e a Cidasc discute uma saída jurídica. A meta é criar uma regulamentação de identidade específica para proteger produtos de origem controlada, garantindo que o embutido sobreviva às exigências de segurança alimentar.