O que começou como um símbolo do luxo extravagante de um dos maiores traficantes de drogas da história floresceu em uma crise ambiental nacional que ameaça cientistas, autoridades e residentes da Colômbia.
Quatro décadas depois de serem levados ilegalmente ao país por Pablo Escobar, os chamados “hipopótamos da cocaína” já somam cerca de 200 animais e avançam sobre rios, plantações e cidades, colocando em risco ecossistemas inteiros e provocando um debate nacional entre sacrificar ou preservar a espécie.
Doradal, uma pequena cidade próxima ao rio Magdalena, adaptou-se à vida com vizinhos improváveis, com hipopótamos pesando até duas toneladas vagando em áreas urbanas, aparecendo perto de jardins e pastando em áreas que os locais costumavam dominar.
Origem na Hacienda Nápoles e explosão populacional
Esta história tem suas origens na década de 1980, quando Pablo Escobar, fundador do Cartel de Medellín e um dos criminosos mais notórios da história, trouxe ilegalmente quatro hipopótamos africanos para povoar o zoológico particular sua luxuosa Hacienda Nápoles, propriedade localizada a cerca de 250 quilômetros de Bogotá.
Após a morte do traficante de drogas no início dos anos 1990, a fazenda foi abandonada, girafas, zebras e outros animais foram transferidos para zoológicos, mas os hipopótamos persistiram na fazenda devido a questões logísticas e altos custos de transporte.
A expectativa era que eles não sobrevivessem por muito tempo, mas o cálculo falhou, pois na Colômbia os animais encontraram condições praticamente perfeitas para se multiplicar, com clima tropical semelhante ao habitat africano, abundância de água no rio Magdalena e ausência total de predadores naturais.
O resultado: uma expansão sem precedentes que resultou em um paraíso inesperado e hoje é considerada a única população selvagem de hipopótamos fora da África, segundo especialistas.
Se nenhuma medida de controle for adotada, projeções apontam que o número pode ultrapassar mil indivíduos nos próximos anos.
Os hipopótamos, que pesam até três toneladas, são considerados por especialistas como um dos mamíferos mais perigosos do mundo e, apesar da aparência tranquila, podem atingir velocidades superiores a 30 km/h em curtas distâncias, além de apresentarem um comportamento territorial agressivo.
Na África, inclusive, eles estão entre os animais que mais provocam mortes humanas.

Impacto ambiental e conflitos com a população local
Muitos pesquisadores alertaram que os impactos ambientais já são visíveis e colocam o ecossistema sob séria ameaça, uma vez que os excrementos dos animais afetam a qualidade da água, favorecem desequilíbrios ambientais e interferem diretamente na vida aquática.
Além disso, as trilhas que os hipopótamos introduziram alteram as margens dos rios e partes da vegetação nativa, criando nova competição entre peixes-boi locais, lontras e capivaras e por peixes que sustentam comunidades ribeirinhas por espaço e recursos naturais.
Cientistas classificam a situação como uma das invasões biológicas mais complexas do planeta, e os moradores relatam medo constante, com pescadores evitando determinados trechos do rio durante a noite e agricultores convivendo com a possibilidade de encontros inesperados próximos a plantações e áreas rurais, já que houve registros recentes de ataques e acidentes envolvendo os animais.

Medidas extremas do governo e o dilema social
Diante do avanço da população, o governo colombiano prepara uma medida extrema e aprovou um plano de aproximadamente US$ 2 milhões para controlar a espécie invasora.
Entre suas ações planejadas estão esterilização, confinamento, realocação internacional e, pela primeira vez em larga escala, o abate seletivo de dezenas de animais.
A decisão gerou uma intensa resposta no país, dividindo opiniões sobre o assunto entre ambientalistas que defendem medidas mais duras para evitar impactos irreversíveis no ecossistema e grupos de proteção animal que dizem que os hipopótamos são uma das muitas vítimas da irresponsabilidade humana e que esses grupos não deveriam pagar o preço com suas vidas.
Tentativas anteriores de controle encontraram intensas dificuldades técnicas, já que a esterilização custa milhares de dólares por indivíduo, envolve equipes especializadas e carrega grandes riscos devido ao tamanho, força e escala dos animais, e movê-los para outros países também é dificultado por desafios burocráticos, sanitários e logísticos.
Enquanto isso, Doradal vive com a longa sombra dos hipopótamos, com o improvável legado do tráfico de drogas; os hipopótamos se tornaram uma atração turística, esculpidos em estátuas, e pessoas voltando à antiga Hacienda Nápoles transformada em parque temático.
O dilema colombiano é um quebra-cabeça, se é que existe um, a ser resolvido: como derrotar uma invasão que ocorreu pela mão humana sem negligenciar o estilo de vida que passou a viver neste país por décadas — e os sons ressonantes das pegadas que ainda ecoam na margem do Magdalena enquanto o país tenta encontrar a solução para um flagelo que começou com quatro animais e pode resultar em um clássico desastre ambiental.
