Cotidiano

Além da Quaresma: o que aconteceu com Zé Pilintra na quarta-feira de cinzas?

Narrativa passada por gerações revela como o encerramento de Carnaval marcou a passagem do malandro para entidade de luz e proteção

Giovanna Camiotto

Publicado em 18/02/2026 às 07:30

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Zé Pilintra é uma entidade espiritual ligada à linha da malandragem / ImageFX

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Na cultura popular e nas religiões afro-brasileiras, a Quarta-feira de Cinzas não simboliza apenas o fim do Carnaval e o início da Quaresma no calendário cristão. Para devotos de matrizes africanas, a data também é associada a uma das narrativas mais conhecidas envolvendo Zé Pilintra, entidade espiritual ligada à linha da malandragem.

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A história, difundida em tradições e pontos cantados, relata que Seu Zé teria sido morto durante o feriado de Carnaval. A cena é descrita como uma noite de temporal na Quarta-feira de Cinzas, com a notícia estampando jornais e correndo pelas ruas. A narrativa ressalta a ironia de que o malandro, conhecido por não temer adversários, teria sido surpreendido por uma mulher, frequentemente identificada como Maria Navalha.

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"Quarta-feira de cinzas / Noite de temporal / Me deram uma notícia que me deixou muito mal / Foi capa de revista, foi manchete de jornal / Mataram Zé Pilintra num dia de Carnaval / Mas, olha que ironia, foi a vida do Seu Zé / Não tinha medo de homem / Morreu nas mãos de uma mulher", cita um de seus pontos.

Mais do que um episódio trágico, o relato é interpretado pelos praticantes como um marco simbólico. A morte representaria o fim de um ciclo de boemia e excessos carnavalescos, dando lugar a uma transformação espiritual. A partir desse momento, Zé Pilintra deixaria de ser apenas um personagem ligado às ruas para assumir plenamente sua condição de entidade de luz, guia e protetor.

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Quem é Seu Zé

Zé Pilintra tem origem no Catimbó-Jurema, tradição religiosa do Nordeste brasileiro, e foi incorporado à Umbanda e ao Candomblé como mestre e guia espiritual. Nessas religiões, ele é representado com terno branco, gravata vermelha e chapéu panamá, símbolos associados à elegância e à malandragem.

A atuação da falagem de Seu Zé está ligada à orientação de consulentes em questões do cotidiano, especialmente relacionadas a trabalho, dificuldades financeiras, conflitos pessoais e abertura de caminhos. Mas há também àqueles que auxiliam "seus filhos" em outros tipos de embaraços.

Zé Pilintra é entidade cultuada na Umbanda, no Candomblé e no Catimbó-Jurema, associado à linha da malandragem e à orientação espiritual/Pexels
Zé Pilintra é entidade cultuada na Umbanda, no Candomblé e no Catimbó-Jurema, associado à linha da malandragem e à orientação espiritual/Pexels
Representado com terno branco, gravata vermelha e chapéu panamá, simboliza elegância e trânsito entre o mundo material e espiritual/Pexels
Representado com terno branco, gravata vermelha e chapéu panamá, simboliza elegância e trânsito entre o mundo material e espiritual/Pexels
Na tradição religiosa, atua como guia que aconselha sobre trabalho, conflitos pessoais e abertura de caminhos/Pexels
Na tradição religiosa, atua como guia que aconselha sobre trabalho, conflitos pessoais e abertura de caminhos/Pexels
A narrativa da Quarta-feira de Cinzas marca sua transformação simbólica após o Carnaval, segundo pontos cantados/Pexels
A narrativa da Quarta-feira de Cinzas marca sua transformação simbólica após o Carnaval, segundo pontos cantados/Pexels
A narrativa da Quarta-feira de Cinzas marca sua transformação simbólica após o Carnaval, segundo pontos cantados/Pexels
A narrativa da Quarta-feira de Cinzas marca sua transformação simbólica após o Carnaval, segundo pontos cantados/Pexels

Dentro dos terreiros, é considerado um intermediário entre o mundo espiritual e o material, atuando como conselheiro. Devotos atribuem a ele características como franqueza, senso de justiça e proteção aos marginalizados. A linha da malandragem, da qual faz parte, trabalha com temas ligados à vida prática, disciplina, responsabilidade e escolhas individuais.

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A Quarta-feira de Cinzas, nesse contexto, ganha significado adicional e marca a continuidade da fé pós-festividades. A narrativa reforça a ideia de resistência e renovação, associando o encerramento do Carnaval a um recomeço espiritual.

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