‘A Exploração das meninas me deu nó na garganta’, afirma Del Bel

Secretário de Segurança de Santos se sente inconfortável com o que ocorre no Centro

Comentar
Compartilhar
07 MAI 2017Por Carlos Ratton10h30
Sérgio Del Bel apontou algumas iniciativas que podem minimizar a situaçãoSérgio Del Bel apontou algumas iniciativas que podem minimizar a situaçãoFoto: Matheus Tagé/DL

A frase do título é do secretário de Segurança de Santos, Sérgio Del Bel Jr. Nem mesmo sua longa experiência como policial militar – ele é coronel reformado – foi suficiente para torna-lo insensível à dramática situação de crianças e adolescentes do Centro, publicada com exclusividade no último domingo, na  reportagem “Meninas são exploradas sexualmente em Santos”. Neste Papo de Domingo, o secretário não só mostrou sua indignação, como apontou algumas iniciativas que podem minimizar a situação.

Diário do Litoral – Como o senhor avalia a situação?
Del Bel –
A reportagem me incomodou muito. Despertou tristeza. É fruto de uma série de falhas que vem se acumulando ao longo dos anos, envolvendo problemas habitacionais, educacionais, econômicos e ainda de estrutura familiar.

Diário – O ambiente também tem influência.
Del Bel –
Quanto mais você tem um ambiente fisicamente deteriorado, mais se contribui para que as pessoas que vivem nele sofram e se tornem vulneráveis.

Diário – A revitalização do Centro e região é ­fundamental?
Del Bel –
As coisas caminham paralelamente. Não adianta ter um lugar bem urbanizado se as pessoas que moram nele não conseguem ter acesso à cultura, lazer, emprego e outros direitos. Lembro que uma pequena rua próxima à entrada de Santos vivia deteriorada e era palco de consumo e tráfico de drogas. Bastou a construtora que ergueu um hotel no local reurbanizá-la – pintou as casas do entorno e melhorou a iluminação – para acabar praticamente com o problema.

Diário – Mas não se pode esperar ações somente da iniciativa privada.
Del Bel –
Cabe ao Poder Público criar condições para que venham investimentos. Para que se fomente o comércio de bom nível e de melhorias ambientais – iluminação e saneamento. Também cabe parcerias com organizações não-governamentais para que sejam desenvolvidas ações sociais nessas áreas para as meninas e suas famílias. Como nos mostrou a reportagem, a maioria está sendo explorada pela própria família.

Diário – As ONGs poderiam realizar cursos?
Del Bel –
Sim, profissionalizantes. A sede da Secretaria de Segurança fica no Mercado Municipal. Atrás existe a Vila Criativa onde se vende presentes confeccionados com material reciclável. Eu já comprei vários presentes lá e encomendei vários serviços. Uma das moças que me vendeu um presente já havia passado por situação semelhante a retratada na reportagem. Ou seja, dá para ter uma alternativa para essas meninas. Há também o Centro Cultural da Juventude nas imediações do mercado.

Diário – Mas é preciso mais.
Del Bel –
Eu estou propondo áreas de lazer no Centro e região. A praia é um excelente local, mas eu acho que o Centro e a Zona Noroeste precisam. Só isso não vai resolver o problema, mas vai humanizar, dar autoestima às pessoas e mostrar o braço do Poder Público agindo. Consequentemente, isso vai gerar mais segurança. No entanto, somente os governos (municipal e estadual) não tem condições de resolver o problema social e de exploração sexual de menores.

Diário – Uma Polícia Militar mais humanizada ajudaria? Porque a maioria dos policiais que atuam nessas áreas trabalha com a repressão e não com a educação.
Del Bel –
Sim. Seria a polícia de aproximação. O principal insumo da segurança pública é a formação. A reportagem aponta que os pais acabam facilitando a exploração sexual das crianças e adolescentes. Isso não chega ao conhecimento da autoridade policial. Na medida que existe uma aproximação, também se estabelece uma relação de confiança entre policiais e comunidade. Por isso, uma polícia humanizada é fundamental para atacar uma parte do problema, que seria a repressão aos homens que se satisfazem com essas meninas e outros que as obrigam a traficar drogas. São várias frentes que precisam ser abertas, mas o ponto crucial é o olhar mais humano e o vínculo pessoal.

Diário – O senhor vai encabeçar alguma ­iniciativa?
Del Bel –
Com relação à segurança, estou estudando algumas alternativas como, por exemplo, melhorar iluminação e a limpeza. É preciso melhorar a autoestima dos moradores. A região do Mercado sempre fica muito suja por conta do descarte de alimentos no chão. Além da degradação, há o desperdício de alimentos. Já propus a reeducação dos comerciantes e a criação de uma cooperativa de reaproveitamento de alimentos.

Diário – Na reportagem foi revelado que alguns comerciantes se favorecem da exploração sexual das meninas. Há como mudar isso?
Del Bel –
Sim, com informação por parte da população local para que ele seja fiscalizado e a instalação de mais câmeras de segurança para descobrir quem está aliciando e se aproveitando sexualmente dessas meninas. Precisamos de mais câmeras. As imagens podem auxiliar na investigação e na repressão de quem vem buscar sexo com as meninas. Na medida que o cara descobre que pode estar sendo gravado, já se inibe. O problema é a falta de dinheiro para comprar os equipamentos.