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Nilton C. Tristão - Correlações perturbadoras

Está na essência humana a procura incessante por padrões que assegurem a existência de uma dialética razoável que nos conecte ao mundo concreto e dê sentido congruente aos caminhos a serem seguidos

Nilton César Tristão, cientista político / DIVULGAÇÃO

Está na essência humana a procura incessante por padrões que assegurem a existência de uma dialética razoável que nos conecte ao mundo concreto e dê sentido congruente aos caminhos a serem seguidos. Todavia, quando ocasionalmente surgem perturbações cognitivas de dimensões abrangentes, dá-se início ao surgimento de teses conspiratórias, delírios paranoicos, imaginações esquizofrênicas e narrativas dignas do realismo fantástico, que acabam tentando impor o desregramento social à vida cotidiana.

Portanto e a partir deste contexto, surge a primeira grande pergunta: seria possível utilizar a teoria da probabilidade condicional como ferramenta para definir o nível de sanidade mental presente no exercício de governança da atual Presidência da República? Ainda, poderíamos interpretar o desvio entre raciocínio e conclusão que subjazem na subversão quase ficcional adotada pelos quadros palacianos?

Segundo o físico Leonard Mlodinow, a força existente em muitas suposições de conluio conspiratório depende das incompreensões de vínculos fáticos, originadas pela confusão que gera a inversão de papel entre sujeito e objeto - efeito e causa. Efetivamente, esse ambiente expressa a principal dificuldade que temos para dialogar com bolsonaristas convictos e tomados pelo dogmatismo, uma vez que estão consumidos por uma semiótica ensandecida, capaz de virar de cabeça para baixo as noções do plausível e da coerência. 

“Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana, e não tenho certeza sobre o universo” (Albert Einstein). O terceiro questionamento nos remete à situação de levarmos em conta o exame de dados a priori e a posteriori compilados de manifestações grupais e individuais dos seguidores de Jair, como uma alternativa de elaborar e conceber prognósticos viáveis que garantam a previsão do futuro próximo. Para tanto, necessitamos seguir o espectro correlacional que precipita a probabilidade em possibilidade e posteriormente a transforma em certeza; para isso, devemos levar em consideração o fato de que Bolsonaro consegue desencadear um ordenamento sinestésico único, ou seja, “um distúrbio neurológico que faz com que o estímulo de um sentido cause reações em outro”.

Na prática, é como se os bolsominions vivessem em um sono profundo, regido por regras próprias, onde a elaboração do raciocínio não necessita derivar de qualquer tipo de veracidade, uma vez que nesse espaço a versão particularizada exprime a bússola que aponta a localização de Passárgada. Como consequência, a liberação do vínculo entre o indivíduo e a realidade paralela reside no despertar desse estado de onirismo, ou seja, a condição mental que ocorre em “síndromes confusionais”, constituído por alucinações que interagem entre si e com o sonhador em vigília.

Contudo, a quarta especulação crucial situa-se na indagação de qual seria o artifício eficiente para desenvencilhar a vítima catatônica dessa anomalia psíquica que incorporou contornos de hipnose coletiva. Em síntese, os incautos estão circunscritos em um mundo de sonhos fantasiosos, onde os demônios são travestidos de santidades que proferem parábolas heréticas, obscurecidas e intestinais, totalmente desprendidas do século das luzes.

“Morrer... dormir... mais nada. Dizer que, por meio de um sono, acabamos com as angústias e com os mil embates naturais de que é herdeira a carne é um desfecho que se deve ardentemente desejar. Morrer... dormir... dormir! Sonhar talvez! Ah! Aqui é que está o embaraço. Pois que sonhos podem sobrevir naquele momento da morte depois de nos termos libertado deste bulício mortal?” (William Shakespeare, Hamlet). “Quando o curso da civilização toma um rumo inesperado quando, ao promover o progresso contínuo que nos habituamos a esperar, vemo-nos ameaçados por machos que associamos à barbárie do passado - naturalmente atribuímos a culpa a tudo, exceto a nós mesmos.” (Friedrich Hayek, O Caminho da Servidão).

* Nilton C. Tristão
Cientista Político

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