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Munícipes reciclam apenas meio quilo de lixo por mês em Cubatão

Cada cidadão produz em torno de 23,4 quilos de lixo por mês, mas baixa adesão à reciclagem gera desperdício

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16 JUN 2017Por Vanessa Pimentel08h00
Por mês, a cidade gera quase três mil toneladas de lixo, das quais apenas 60 são recicladasFoto: Matheus Tagé/DL

Cubatão conta com uma cooperativa regularizada que separa materiais recicláveis, a Associação Beneficente de Catadores de Material Reciclável da Baixada Santista (ABC Marbas), criada em 2001 e instalada em um terreno com permissão de uso cedida pela prefeitura, no bairro Sítio Cafezal.

Por mês, a cidade gera quase três mil toneladas de lixo, das quais apenas 60 são recicladas.  Desmembrando ainda mais este cálculo, cada cidadão produz em média 23,4 quilos de lixo por mês e recicla apenas meio quilo desse total.

Atualmente, a única parceria entre a ABC Marbas com a prefeitura é a concessão do galpão e o recebimento do material recolhido na coleta seletiva diária realizada pela Terracom.

A falta de apoio e reconhecimento da importância do trabalho realizado pelos cooperados os deixa em maus lençóis toda vez que algo relacionado à verba acontece por lá. O telhado, por exemplo, está quebrado desde 2014.

“Já enviamos inúmeros ofícios à prefeitura e conversamos com diversos vereadores, mas ninguém ajudou. Quando chove cai água em cima da esteira, aí ela quebra toda hora”, explica Carlos Antônio de Araújo, presidente da entidade.

O conserto do teto não sai caro, mas com a renda mensal obtida pela venda dos reciclados mal dá para pagar um salário mínimo para os 27 cooperados que trabalham na triagem do material. Porém, depois de muitas tentativas, o problema, pelo menos do telhado, está perto do fim devido à parceria com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC). “Eles estão com a gente desde o início e depois que contamos sobre o teto, disseram que vão arrumar para a gente”, declara Carlos.

Com relação aos equipamentos, a cooperativa conta com uma prensa, uma esteira, uma balança, uma empilhadeira e dois carrinhos para os catadores. Os maquinários foram doados no início das atividades da ABC Marbas pela Petrobrás, mas devido à crise atual na instituição, não apoia mais este tipo de iniciativa na Região. Hoje, a parceria mais atuante, tanto na manutenção quanto para aquisição de novas máquinas, é com a ABIHPEC.

 

Carlos explica sobre a falta de apoio público e luta ao lado dos cooperados pela valorização da profissão (Foto: Matheus Tagé/DL)

Rotina

Todo dia, o caminhão da coleta seletiva deixa em torno de 1.200 Kg de resíduos na cooperativa. A quantidade é tão pouca perto do que eles precisam para ocupar a rotina diária de 8 horas de serviço, que foi preciso dispensar cooperados por falta de trabalho.

Depois os materiais vão para a esteira e os cooperados vão separando: o que é plástico vai para o bag de plásticos, o que é vidro segue para o bag de vidros e assim sucessivamente. No fim do dia, tudo que é rejeito, ou seja, material que não pode ser reciclado, a Terracom pega de volta e leva para o aterro Sítio das Neves, na Área Continental de Santos. O reciclável é vendido para indústrias, a maioria em São Paulo.

Itinerário

Além do material recebido da coleta seletiva, a cooperativa também recebe resíduos das refinarias, da catação pelas ruas e dos ecopontos. “Mas, tem vezes que o caminhão da coleta de lixo orgânico passa antes do caminhão da coleta seletiva e acaba levando o que deveria vir para nós. Falta organização no itinerário”, explica Fernanda.   

Falta de apoio

Apesar das falhas do poder público com o setor, iniciativas futuras estão sendo estudadas pela Administração. Uma delas é referente à obrigação da destinação correta e obrigatória do lixo eletrônico, hospitalar, chapas de raio-x e óleo de cozinha usado.

Enquanto a ABC Marbas aguarda por políticas públicas, luta com as armas que têm para tentar conscientizar a sociedade. Uma das inciativas é o oferecimento de visitas a escolas e palestras em empresas explicando sobre a importância da separação do lixo antes do descarte. “Nas escolas é difícil porque falta interesse dos alunos, mas mais ainda dos coordenadores e professores. Eles respondem que educação ambiental não faz parte da grade escolar”, declara Fernanda.

Trabalho social é destaque em cooperativa

Carlos Antônio, antes de ser presidente da Cooperativa, era vigilante. A vida mudou depois de um tiro que levou, fruto dos riscos da antiga profissão. Adoecido e sem emprego, começou a pegar o que encontrava nas lixeiras e revender. Os caminhos o levaram a fazer amizade com outros catadores até conhecer o pessoal do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis. Com ele, viajou a Brasília e após algumas reuniões com o governo Lula, voltou para casa com conquistas que ecoam até hoje. 

Uma das mais relevantes foi a sanção da Lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos, pelo ex-presidente em 2010, que criou princípios, objetivos, instrumentos e diretrizes para a gestão dos resíduos sólidos. A lei ficou parada por mais de 20 anos no Congresso até ser implementada.

A ABC Marbas é pequena, mas além do espaço para a triagem dos materiais, há uma área que, pela disposição, lembra uma sala de aula. No local, além de reuniões, palestras e cursos, tem cultos às sextas-feiras. “Trabalhamos com pessoas que precisam de fé”, diz Carlos.  

Os cooperados são, em maioria, pessoas em situação de vulnerabilidade social ou em atendimento no Centro de Centro de Atenção Psicossocial da cidade que encontram na reciclagem, uma forma de sobreviver. 

Pensando nisso, Carlos conta uma vez por semana com o apoio de uma assistente social e uma psicóloga que trabalham o lado social e psicológico do pessoal. “É quase voluntário porque infelizmente não consigo pagar o que as duas mereciam. Mas, faço questão da presença delas aqui porque temos muitas pessoas que precisam do trabalho realizado por elas”, justifica. 

A cooperativa consegue oferecer café da manhã, almoço e uma segunda chance para quem perdeu a primeira.
 

 

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