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Mulheres de São Vicente têm quase 30 filhos e uma história em comum

Histórias das vicentinas Célia e Angela são parecidas; burocracia dificultou o acesso à laqueadura

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28 NOV 2016Por Daniela Origuela10h50
As duas mulheres residem no mesmo bairro, em São Vicente, e contaram suas histórias ao Diário do LitoralFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Célia Cristina dos Santos, 40 anos, 15 filhos e grávida da 16ª criança. Ângela Nascimento Silva, 45 anos, 11 filhos, cria uma das netas. Mães ainda na adolescência, em meio às dificuldades do dia a dia, as moradoras do bairro Jóquei Clube, em São Vicente, encaram a maternidade como dom. Tentaram evitar a reincidência na gravidez, mas esbarraram na burocracia da saúde pública. Nas histórias das duas mulheres, relatadas ao Diário do Litoral, os temas em destaque são o preconceito, a luta, o planejamento familiar, o amor e os sonhos.

“Fiquei grávida aos 16 anos. Não foi uma gravidez planejada. Aconteceu. Tive cinco filhos do primeiro casamento. Era evangélica e minha ex-sogra muito fanática. Não podia tomar ­remédio. No segundo ­casamento tive problema com remédio e engravidei novamente. Procurei planejamento familiar. Fui eu e o meu ­esposo, mas não fizeram a laqueadura. Disseram que eu não tinha uma cesariana. Mandaram eu voltar depois, mas fiquei grávida de novo”, disse Célia, que descobriu recentemente estar esperando seu 16º filho. 

Aos 22 anos, Célia já tinha cinco filhos do primeiro casamento. Do segundo matrimônio, com o seu atual marido, que trabalha como ajudante de pedreiro e está desempregado, nasceram 10 filhos. O espaço entre o nascimento de um e outro é de aproximadamente dois anos. Os dois mais novos ainda usam fraldas. Aos 40 anos, a dona de casa tem quatro netos. 

“Não vou falar que é fácil, mas a gente corre atrás. Não deixa passar fome. Eu amo meus filhos. Às vezes até sinto falta de tempo para mim, mas quando eles vão para a casa da avó já fico agoniada. Não consigo viver sem eles não. Acho que nasci para ser mãe”, destacou Célia, que diz ter a ajuda do marido para as tarefas de casa e no cuidado com os filhos. “Ele é um pai calmo e paciente. Meus filhos mais velhos também me ajudam bastante”.

A família mora em uma casa de dois cômodos, que é herança de família e tem uma dívida de R$ 2 mil em IPTU. Eles dormem juntos na sala, que foi dividida, em colchões no chão. Com o marido ­desempregado, a única renda é do Bolsa Família - pouco mais de um salário mínimo. “Cada um tem a sua casa. Queriam vender, mas eu não tenho para onde ir. Se pudesse ter uma ajuda para pagar o imposto ­ficaria feliz”.

Célia disse que não se arrepende de ter tido tantos filhos, mas faria diferente. “Porque eu quero dar o melhor. A situação que a gente vive não dá para dar mais”. O preconceito também é presente na vida da moradora do Jóquei Clube. “Sofro muito preconceito por ter muitos filhos. Me chamam até de sem vergonha. Mas meus filhos são bem cuidados. Tem gente que tem um filho só e deixa jogado. Todos os meus filhos estão na escola. O que não fiz por mim tento fazer por eles”. 

A dona de casa orienta as filhas adolescentes. “Minha mãe fala para pensar bem e não ter muitos filhos. Fala para estudar. Ela pega no pé”, disse Ester, de 14 anos, filha de Célia. 
Antes de terminar a entrevista, Célia fez um apelo à Reportagem. “Se pudesse gostaria de encontrar um médico que se sensibilizasse com a minha situação e fizesse a laqueadura. Meu marido fez a vasectomia, mas não deu certo e agora ele tem medo de fazer novamente­”.

História

Ângela mora perto de Célia e tem ­história parecida. Engravidou do primeiro filho aos 18 anos e casou. ­Parou de estudar no 6º ano e se dedicou à família. Seu filho mais velho tem 28 anos e a mais nova cinco. Recentemente, uma das netas, de um ano, foi morar com ela. 

“Tive meu primeiro filho quando ia fazer 18 anos. Namorava com o pai do meu filho e contaram para a minha mãe. Ela me espancou porque disse que eu tinha perdido a virgindade. Me revoltei, fui morar com ele e não quis mais voltar para a escola”, contou Angela, que já tem cinco filhos casados e quatro netos. 

Assim como Célia, Angela também tem problemas com anticoncepcional. Fez todos os pré-natais dos 11 filhos e foi encaminhada ao planejamento familiar. Por cinco anos tentou a laqueadura, mas sem sucesso. “Quando tive o meu terceiro filho ­tentei fazer a ­laqueadura. Fui na UBS. O médico falava que ia marcar a cirurgia. Passou os nove meses e nada.

Continuei tentando. Só no Guilherme Álvaro (hospital) foram cinco anos tentando, tanto que a metade dos filhos eu tive lá para ver se conseguia operar. Já expliquei para o médico que quando tomo remédio (anticoncepcional) me sinto muito mal. E o pior é que continuo menstruando mesmo grávida”, afirmou. 

A vida de Angela também é de batalha. O marido é mecânico e ela decidiu fazer um curso de cabeleireiro. Montou um pequeno salão, onde atendia suas clientes. No entanto, o local pegou fogo. “­Resolvi aprender a fazer cabelo e unha. Tinha um salão montado. Perdi as ­minhas coisas no incêndio. Hoje tenho que ir na casa das ­clientes ­fazer cabelo. Levo todos os pequenos comigo onde vou. Se ­alguém tiver coisas de salão para doar eu agradeço”, disse. Hoje a família mora em uma casa de dois ­cômodos. 

A cabeleireira contou que não é fácil criar tantos filhos, devido às dificuldades econômicas. Ela também convive com o preconceito. “Sofro preconceito da ­própria família. Tem gente que faz festa e não convida porque é muita criança. Mas meus filhos são bem cuidados. Não me arrependo de ter tido os meus filhos. Eu posso ser o que for, mas eles sempre estão do meu lado. Fico triste quando vejo uma mãe que tem um filho só e abandona. Eu tive muitos filhos, mas aconselho eles a não ter nenhum, por ­conta de tudo que passei e passo. Incentivo meus filhos a estudar para ter uma vida diferente da minha”, afirmou Angela. 

Orgulhosa da mãe, Alice Nascimento, de 20 anos, destacou o papel da genitora em sua vida. “Minha mãe é tudo e mais ainda. Ela fala para a gente não seguir as pessoas erradas e incentiva a gente a ter uma vida melhor. Minha mãe é a minha fortaleza”, ­destacou.

Acesso à laqueadura é dificultado por burocracia prevista em lei

A lei do planejamento familiar diz que é obrigação do governo brasileiro, em todos os seus níveis, federal, estadual e municipal, ­disponibilizar orientações e métodos anticoncepcionais reconhecidamente seguros do ponto de vista científico para todas as mulheres e homens brasileiros e que essa oferta deve ser feita pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A esterilização de homens – vasectomia - e mulheres – laqueadura - é prevista aos que tenham pelo menos 18 anos e dois filhos ou 25 anos, independentemente do número de filhos. O período de tempo entre a manifestação da vontade e a realização da cirurgia tem que ser de pelo menos de 60 dias. 

Em 2015, segundo dados fornecidos pela Secretaria Estadual de Saúde, foram realizadas 831 cirurgias de laqueadura tubária na Baixada Santista. Neste ano, até agora, foram realizadas 742 procedimentos. 

Diário do Litoral questionou as prefeituras dos nove municípios da Baixada Santista quanto aos programas de Planejamento Familiar e o tempo de espera para a cirurgia de laqueadura. A maioria informou que oferece o atendimento e segue o que preconiza a lei federal e as recomendações do Ministério da Saúde. 

A burocracia para o acesso ao procedimento está no período de espera previsto na lei federal entre o desejo de realizar a cirurgia e o procedimento deve ser de no mínimo 60 dias. O objetivo, segundo a legislação é “informar à pessoa interessada acesso a serviço de regulação da fecundidade, incluindo aconselhamento por equipe multidisciplinar, visando desencorajar a esterilização precoce; risco à vida ou à saúde da mulher ou do futuro concepto, testemunhado em relatório escrito e assinado por dois médicos­”.

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