Variedades
Especialista aponta machismo estrutural, sentimento de posse e "violência vicária" como fatores por trás de tragédias que vêm chocando o país
A tragédia ocorreu na madrugada de quinta-feira (12) / Divulgação
Continua depois da publicidade
O assassinato de dois irmãos pelo próprio pai em Itumbiara (GO) reacendeu uma pergunta inquietante: por que casos de violência familiar extrema parecem estar se tornando mais frequentes e visíveis no Brasil?
Situações antes associadas a outros países passaram a ocorrer com maior destaque também no Brasil, muitas vezes envolvendo homens que não apresentavam histórico público de agressividade.
Continua depois da publicidade
Do ponto de vista psicológico, especialistas apontam que esses episódios não surgem de um “surto momentâneo”, mas de um conjunto de fatores culturais, emocionais e sociais.
Entre eles, destacam-se a visão de posse sobre a parceira, o agravamento de conflitos conjugais e a chamada violência vicária — quando o agressor atinge terceiros, especialmente filhos, para causar sofrimento à mulher.
Continua depois da publicidade
A tragédia ocorreu na madrugada do último dia 12, quando o secretário de Governo do município matou os dois filhos, de 12 e 8 anos, e depois tirou a própria vida. Um dos meninos morreu ainda no dia do crime; o outro chegou a passar por cirurgia, mas não resistiu.
Segundo informações preliminares, o episódio pode estar relacionado ao fim do casamento e à descoberta de uma suposta traição.
Antes dos disparos, o homem teria publicado mensagens nas redes sociais pedindo desculpas e demonstrando afeto pelos filhos, o que reforça o caráter planejado da ação. A Polícia Civil investiga as circunstâncias e a motivação.
Continua depois da publicidade
Para a psicóloga Francine Branco, crimes desse tipo costumam estar ligados a uma lógica de punição direcionada à mulher, não às crianças.
Segundo ela, existe uma estrutura cultural na qual alguns homens se veem como donos da parceira e não aceitam a perda de controle sobre a relação. Nesses casos, a agressão pode assumir diversas formas — física, psicológica, moral, sexual ou patrimonial.
A especialista explica que, quando ocorre a chamada violência vicária, o agressor ataca quem a vítima mais ama para provocar sofrimento extremo.
Continua depois da publicidade
Não bastasse a violência já existente na relação, o objetivo passa a ser causar uma dor irreversível, como forma de vingança.
Francine Branco ressalta que, nesse tipo de crime, os filhos são escolhidos justamente por representarem o vínculo emocional mais forte da mãe. O ato busca gerar culpa permanente e impedir que ela siga a vida após a separação.
Outro ponto destacado pela psicóloga é que esses episódios raramente são resultado de um impulso momentâneo.
Continua depois da publicidade
Ela afirma que, na maioria dos casos, trata-se de uma decisão pensada, motivada por ressentimento e desejo de retaliação.
O agressor pode levar uma vida aparentemente normal e conviver socialmente sem demonstrar sinais evidentes, até que um evento — como o fim do relacionamento — desencadeie a ação.
A especialista também aponta que a sensação de aumento desses crimes está ligada à visibilidade atual. As redes sociais fazem com que casos antes pouco divulgados ganhem repercussão nacional e internacional.
Continua depois da publicidade
Além disso, ela destaca que movimentos misóginos e discursos que reforçam a submissão feminina podem legitimar comportamentos violentos em indivíduos já vulneráveis emocionalmente.
Esse ambiente favorece a culpabilização da mulher e a relativização do crime, desviando o foco da gravidade do ato.
Francine Branco observa que a discussão não deveria girar em torno da vida pessoal da vítima, mas sim do fato de um pai ter assassinado os próprios filhos como forma de atingir a ex-companheira.
Continua depois da publicidade
Embora raros, crimes desse tipo provocam forte impacto coletivo e expõem fragilidades nas políticas de prevenção à violência doméstica e familiar. Especialistas defendem maior atenção a sinais de controle excessivo, ameaças indiretas e comportamentos obsessivos após separações.
Casos como o de Itumbiara mostram que a violência contra a mulher pode ultrapassar a relação conjugal e atingir toda a família.
Para a psicologia, compreender esses mecanismos é essencial para prevenir novas tragédias e romper ciclos de violência que, muitas vezes, permanecem invisíveis até o pior desfecho.
Continua depois da publicidade