Saúde

Pela primeira vez, pacientes brasileiros vão receber cogumelos psicodélicos; Saiba mais

Pacientes oncológicos com ansiedade existencial serão os primeiros a receber psilocibina em pesquisa clínica no Brasil

Nathalia Alves

Publicado em 12/03/2026 às 19:15

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Instituto Alma Viva e Uninorte-Acre conduzirão pesquisa inédita com aprovação da Anvisa e CONEP / Reprodução/Freepik

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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, em uma decisão inédita no país, o uso de cogumelos secos contendo psilocibina em ensaios clínicos com pacientes oncológicos que sofrem de ansiedade existencial, condição psicológica profunda relacionada ao medo da morte e à perda de sentido diante de um diagnóstico de câncer.

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O estudo, aprovado pelo sistema CEP/CONEP (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), será conduzido pelo Instituto Alma Viva em parceria com a Uninorte-Acre. Pela primeira vez na história do Brasil, pacientes receberão psilocibina de forma legal, controlada e dentro de um rigoroso protocolo de pesquisa clínica.

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O que essa autorização representa

Até agora, toda a discussão sobre o potencial terapêutico da psilocibina no Brasil acontecia em uma zona cinzenta: relatos anedóticos, uso clandestino ou viagens ao exterior em busca de tratamentos experimentais. Com a autorização da Anvisa, o país ingressa em uma nova era da pesquisa psicodélica, caracterizada por:

  • Marco regulatório definido
  • Pesquisa institucional com rigor científico
  • Protocolos de segurança estabelecidos
  • Geração de dados brasileiros sobre a substância

A enteogenia, campo que estuda o uso de substâncias psicodélicas em contextos terapêuticos e espirituais, saiu oficialmente da margem e entrou no laboratório, agora com respaldo das autoridades sanitárias e éticas do país.

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Por que a depressão maior é alvo de estudos com psilocibina

No Brasil, cerca de 1 em cada 10 adultos sofre de depressão. Milhões de pacientes não respondem aos tratamentos convencionais com antidepressivos, caracterizando o quadro conhecido como depressão resistente ao tratamento.

Estudos internacionais conduzidos em centros como Johns Hopkins, Imperial College London e NYU Langone Health já demonstraram que a psilocibina, quando administrada em ambiente terapêutico controlado, pode:

  • Reduzir os sintomas depressivos em 50% a 70% após apenas duas sessões
  • Produzir efeitos sustentados por meses após o tratamento
  • Apresentar eficácia significativa em casos resistentes a antidepressivos tradicionais 

Dados recentes de ensaios clínicos de fase 3, como os conduzidos pela Compass Pathways com sua formulação sintética COMP360, confirmam a rápida ação da substância, com efeitos observados já no dia seguinte à administração, e a durabilidade dos benefícios por pelo menos 26 semanas após apenas uma ou duas doses.

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Ansiedade existencial no câncer

Receber um diagnóstico oncológico não afeta apenas o corpo. Atinge profundamente a relação do paciente com a vida, com a morte e com o sentido da própria existência.

Essa angústia profunda, chamada de ansiedade existencial, é comum em pacientes terminais ou com doenças graves e muitas vezes não responde a tratamentos farmacológicos convencionais.

Estudos internacionais conduzidos nas últimas duas décadas mostram que uma única sessão de psicoterapia assistida por psilocibina pode reduzir drasticamente a ansiedade existencial e melhorar significativamente a qualidade de vida em pacientes com câncer avançado.

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Pesquisas pioneiras do falecido psiquiatra Roland Griffiths, da Universidade Johns Hopkins, demonstraram que 80% dos pacientes oncológicos tratados com psilocibina apresentaram reduções clinicamente significativas na ansiedade e depressão, com benefícios mantidos por seis meses ou mais.

Como funcionará o estudo brasileiro

O protocolo aprovado no Brasil seguirá os rigorosos padrões internacionais para pesquisas com psicodélicos, incluindo:

  1. Triagem e avaliação criteriosa dos pacientes elegíveis
  2. Sessões preparatórias com equipe psicoterapêutica especializada
  3. Administração controlada da psilocibina em ambiente clínico monitorado
  4. Suporte durante a experiência (set e setting)
  5. Sessões de integração após a experiência para processar os conteúdos psicológicos emergentes

O Instituto Alma Viva, que já oferece atendimento clínico e pós-graduação em psicoterapia assistida por psicodélicos, será o braço operacional da pesquisa no estado de São Paulo, enquanto a Uninorte-Acre coordenará aspectos acadêmicos e regionais do estudo.

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Contexto internacional e avanços regulatórios

A pesquisa brasileira ocorre em um momento de avanços significativos no cenário global. A Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos já concedeu o status de Breakthrough Therapy (Terapia Inovadora) para a psilocibina no tratamento da depressão resistente, e a expectativa é que o primeiro medicamento à base da substância seja aprovado ainda em 2027.

No Reino Unido, estudos da Compass Pathways com mais de 500 pacientes demonstraram consistentemente a eficácia da psilocibina, com reduções médias de 3,8 pontos na escala de depressão em comparação com doses muito baixas da substância.

Já no Canadá, pesquisas do Krembil Brain Institute, ligado à Universidade de Toronto, apontam que a psilocibina pode melhorar não apenas o humor, mas também funções cognitivas como velocidade de processamento e flexibilidade mental em pacientes com depressão resistente.

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Próximos passos

Com a aprovação da Anvisa e do sistema CEP/CONEP, o Instituto Alma Viva inicia agora a fase de recrutamento de pacientes oncológicos elegíveis para o estudo. Serão selecionados pacientes com diagnóstico de tumores malignos que apresentem quadros clinicamente significativos de ansiedade existencial e que não tenham respondido adequadamente aos tratamentos convencionais.

O estudo representa um marco histórico para a ciência brasileira e abre caminho para que, no futuro, a psicoterapia assistida por psilocibina possa se tornar uma opção terapêutica legal e acessível no país para pacientes que enfrentam o sofrimento psíquico associado a doenças graves e à proximidade da morte.

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