Ao contrário dos espermatozoides, cuja produção é contínua, o estoque de óvulos não se renova / Imagem gerada por IA
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Na vigésima semana de gestação, com o tamanho de uma banana, um feto do sexo feminino já carrega entre 1 milhão e 2 milhões de óvulos imaturos dentro de seus ovários. 99% deles morrem e são reabsorvidos pelo corpo antes de amadurecerem.
Na puberdade, o ovário passa a liberar um óvulo maduro todo mês, prontinho para receber um espermatozoide.
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Se ninguém vier, tudo bem: o óvulo se dissolve e vai embora na menstruação junto com o endométrio (tecido que reveste o útero para receber um embrião). Mês que vem tem de novo.
Ao contrário dos espermatozoides, cuja produção é contínua, o estoque de óvulos não se renova. Com o tempo, a qualidade deles também é afetada. Eles sofrem danos celulares cumulativos e ficam mais suscetíveis a mutações.
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Essas mudanças começam a se acentuar a partir dos 35 anos. Engravidar se torna mais raro e complicado. Antigamente, o fim dos óvulos indicava o fim dos partos que enchiam a casa de crianças em escadinha. E que escada.
Em 1960, as brasileiras tinham 6,28 filhos, em média. Hoje, a taxa é de 1,55 – queda causada por várias mudanças na sociedade, como a maior presença das mulheres no mercado de trabalho e a disseminação dos métodos contraceptivos.
Os casais têm menos filhos, e se tornam pais cada vez mais tarde. Entre 2003 e 2022, os partos entre mulheres com mais de 40 anos aumentaram 83%.
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O percentual de mulheres que chegam aos 50 sem filhos subiu de 10% para 16,1% entre 2000 e 2022. Gente que não quer ser mãe – ou que deseja adiar os planos da maternidade. Mas ninguém avisou o repositório de óvulos, que continua se esgotando na velocidade de sempre.
É por isso que, há décadas, o mundo corre para ganhar tempo com soluções de reprodução assistida. Em 2023, esse mercado movimentou R$ 1,3 bilhão só no Brasil (1).
E, se antes as clínicas do ramo eram frequentadas sobretudo por mulheres chegando aos 40 e já com dificuldades em engravidar, hoje alguns estabelecimentos relatam que entre 30% e 40% das pacientes são jovens que, muitas vezes, não sabem sequer se desejam ter filhos e procuram pela preservação de fertilidade.
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Elas passam por procedimentos para amadurecer, retirar e congelar vários óvulos de uma vez. E, aí, o relógio para de contar: dentro de recipientes fechados e imersos em nitrogênio líquido, os óvulos podem durar décadas com a saúde de quem tem 20 e poucos anos.
Se elas resolverem ter filhos, poderão escolher um parceiro ou doador de sêmen e descongelar os óvulos para a fertilização in vitro (FIV), que já é praticada no País há 40 anos.
A FIV, vale lembrar, acontece fora do corpo – espermatozoides e óvulos são juntados artificialmente em uma plaquinha para formar embriões que podem ser implantados e gestados.
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Para muitas pessoas com problemas de fertilidade, a FIV é a única forma de realizar o sonho de ter filhos biológicos.
Esse tipo de procedimento é fiscalizado pela Anvisa e regido por normas do Conselho Federal de Medicina (CFM). Em 2013, uma resolução do CFM garantiu que casais homoafetivos e pessoas solteiras também poderiam acessar os serviços de reprodução assistida, o que aumentou ainda mais a procura.
Os dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio) revelam que a busca por essas tecnologias atingiu patamares históricos. O congelamento de óvulos, cujos dados começaram a ser coletados pelo SisEmbrio em 2020, saltou de 56.710 naquele ano para expressivos 147.015 em 2025.
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O crescimento é contínuo: em 2021 foram 92.921; em 2022, 90.130; em 2023, 111.687; e em 2024, 117.865.
O cenário é semelhante para os embriões. Em 2012, o Brasil registrava 32.181 embriões congelados.
Treze anos depois, em 2025, esse número chegou a 144.471. Houve picos notáveis nesse intervalo, como o salto de 47.812 em 2014 para 67.359 em 2015, e a ultrapassagem da marca dos 100 mil em 2021, com 111.191 unidades preservadas.
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A preservação da fertilidade segue um roteiro científico rigoroso, dividido em cinco etapas fundamentais:
Estimulação Ovariana: A paciente recebe doses personalizadas de hormônios durante alguns dias. O objetivo é estimular o amadurecimento de vários folículos ovarianos (bolsinhas que podem conter óvulos) de uma só vez.
Coleta: Sob sedação leve, os folículos são aspirados por uma agulha guiada por ultrassom, que atravessa a parede da vagina até o ovário. O procedimento dura menos de 30 minutos e a paciente recebe alta no mesmo dia.
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Análise dos Óvulos: Em laboratório, embriologistas abrem os folículos e separam os óvulos maduros. Uma análise visual classifica os mais saudáveis e promissores antes de passarem por uma limpeza.
Criopreservação: A amostra é submersa em nitrogênio líquido a -196°C. O congelamento é quase instantâneo (vitrificação), o que impede a formação de cristais de gelo que poderiam danificar as células.
Possíveis Usos: Óvulos, espermatozoides e embriões podem permanecer congelados por tempo indeterminado. No momento desejado, são descongelados para a FIV e os embriões são implantados normalmente.
Uma paciente, a quem chamaremos de uma identidade preservada, acordava cedo para aplicar injeções de hormônios na própria barriga. A dosagem visava amadurecer o maior número possível de folículos.
A cada dois dias, ela realizava ultrassonografias para monitorar o processo. Dez dias depois, com a pelve inchada, os folículos foram aspirados.
Sob um microscópio, um embriologista examinou cada unidade. Nessa etapa, alguns laboratórios usam uma ferramenta de inteligência artificial treinada com base em 625 mil imagens de óvulos para prever as chances de sucesso com mais precisão do que a avaliação visual humana.
No caso dessa paciente, 13 óvulos maduros foram separados e limpos, enquanto os demais foram descartados.
Aos 32 anos e recém-divorciada, ela optou por não fertilizá-los imediatamente. Sem saber se teria um novo parceiro ou se a saúde permitiria uma gravidez natural no futuro, investiu R$ 10 mil para enviar suas células direto para os tanques de nitrogênio.
Seus 13 óvulos se somaram aos mais de 600 mil congelados no país em 2025, dos quais cerca de 147 mil pertencem a pessoas focadas exclusivamente na preservação da fertilidade.
Para alcançar esses números, foram necessários 62 mil ciclos de coleta. Mulheres com menos de 35 anos conseguem, em média, 15,21 óvulos por ciclo, enquanto para as mais velhas a média cai para 8,61.
Como cada nascimento vivo pode exigir cerca de nove óvulos (para menores de 35), muitas recorrem a múltiplos ciclos para aumentar as chances.
Para usar o material, o sêmen passa por contagem, avaliação de formato e motilidade. Antes da fertilização, o sêmen é lavado para separar os espermatozoides do líquido seminal, o que permite inclusive remover vírus como o HIV.
Feita a fecundação, os zigotos vão para uma incubadora e, após cinco dias, os embriões viáveis são selecionados.
Embora a ciência permita escolher embriões sem doenças genéticas, as incertezas permanecem. Estima-se que a população de embriões congelados no Brasil equivaleria à trigésima maior cidade do país.
Só a clínica Semear, no interior de São Paulo, abriga 99 mil do estoque nacional de embriões, exigindo uma logística complexa para evitar erros de identificação.
Os custos financeiros e emocionais são altos. Uma tentativa de FIV custa cerca de R$ 30 mil, valor não coberto por planos de saúde. No SUS, a fila de espera pode levar anos. Há também o dilema do que fazer com os "sobressalentes".
Herbert mantém 15 embriões congelados desde 2009 e paga uma taxa anual de R$ 2 mil para mantê-los, sem planos de usá-los, mas sem saber se deve descartá-los ou doá-los.
A legislação brasileira ainda é lacunosa sobre os detalhes da reprodução assistida. Enquanto em alguns lugares do mundo, como no Alabama, embriões ganharam status de cidadãos, por aqui as decisões costumam ser tomadas caso a caso.
Antes, a reprodução era limitada pela biologia; agora que a ciência domou etapas do processo, os dilemas éticos e morais tornaram-se o novo território a ser explorado.