Um laudo pericial, obtido com exclusividade pelo Diário do Litoral, na última quinta-feira (15), comprovou a autenticidade de conversas telefônicas entre um homem não identificado, que se apresenta como interlocutor da Santa Casa de Misericórdia de Santos, e o diretor-presidente da empresa Five Star, Tosca de Almeida, em que o primeiro pede R$ 20 mil mensais de propina para manter a empresa trabalhando na unidade. A Five Star assinou contrato em dezembro de 2014 e prestou serviços de limpeza e conservação do hospital no ano passado. Portanto, a atual diretoria do Hospital não é alvo da denúncia.
O laudo, assinado pelo perito Maurício Raymundo de Cunto, em 8 de setembro último, e autenticado no 27º Tabelião de Notas de São Paulo, será anexado a um dossiê que se encontra no Ministério Público Federal (MPF), que já teria aberto investigação para confirmar a veracidade das informações contidas no documento. Com cerca de 200 páginas, o dossiê também foi entregue e protocolado para toda a diretoria da Santa Casa, em abril deste ano. O Diário apurou que as investigações também vêm sendo acompanhadas pelo Ministério Público Estadual (MPE). O contrato assinado pela Five Star era de quase R$ 700 mil e a empresa possuía cerca de 230 funcionários.
O laudo pericial é dividido em partes. A primeira possui 17 páginas. Alguns trechos da conversa estão reproduzidos nesta reportagem. O Diário entrevistou o diretor-presidente da empresa, que acredita que não foi o único que enfrentou o problema na Santa Casa – o primeiro hospital do Brasil. Tosca de Almeida se revela inconformado com as chantagens a qual passou, pois ofereceu realizar uma obra na ordem de R$ 1 milhão enquanto o contrato estivesse vigente. Conta que o contrato não lhe dava R$ 1,00 de retorno. O que recebia, revela, era para pagar as despesas e os funcionários.
“Fiz isso por amar a Santa Casa, que faz parte de minha vida desde menino. Enquanto todo mundo pensa que a Santa Casa precisa de ajuda, você escuta um diretor falar que é uma empresa privada, que tem o direito de contratar quem quiser, pelo preço que quiser. A população não sabe disso. Enquanto existem dezenas de voluntários que trabalham debaixo de chuva, há pessoas que chegam 11, três da tarde. A Santa Casa não precisa disso. Precisa de gente para trabalhar”, desabafa Almeida. Confira os principais trechos da entrevista:
Diário do Litoral – O senhor disse que começou a receber ligações no decorrer do contrato?
Tosca de Almeida – Sim. Eu comecei a receber ligações de pessoas que não se identificavam. Mas era óbvio que eram da Santa Casa, pois adiantavam o que iria acontecer caso eu não cedesse a pagamentos de propina.
DL – Quanto pediam para o senhor?
Tosca – R$ 30 mil por mês (o laudo aponta R$ 20 mil). Teve um momento que eu falei o seguinte: Então tá, mas eu quero entregar para a pessoa da Santa Casa. Aí eles falaram que não era assim. Ou seja, queriam receber, mas não queriam que eu identificasse o receptor.
DL – Não marcaram um local para encontro?
Tosca – Não. Só falavam que o contrato com a empresa anterior se manteve por 30 anos porque sempre foi assim. Eu tirei extratos de cinco anos da empresa anterior, que foi comprada por mim, e realmente vi que foram feitos saques. Mas isso não quer dizer nada.
DL – O que ocorreu depois das recusas?
Tosca – Começaram a não me pagar (cumprir o contrato). Chamaram o sindicato dos funcionários. Promoviam paralisações. Isso tudo com dinheiro na conta, eu chequei. Não me pagavam. Foram minando. Falaram que iriam me tirar de Santos e conseguiram.
DL – Seu prejuízo deve ter sido grande.
Tosca – Não só financeiro, como moral. Quando eu passei a não atendê-los mais, sabendo que eu tinha outros contratos, eles me ligavam como se fossem das outras empresas e, quando eu atendia, começavam novamente (a chantagem).
DL – O senhor comunicou a direção da Santa Casa?
Tosca – Eu levei o dossiê para os 19 diretores da Santa Casa e entreguei cópias das gravações para cada um, mostrando o que estava ocorrendo comigo.
DL – E o que a diretoria fez?
Tosca – Absolutamente, nada. Colocaram uma empresa com contrato superior ao da minha, que sequer recebia para cobrir as despesas. Eu levei a situação ao Ministério Público e pedi que fosse investigado o contrato realizado com a empresa que substituiu a minha.
DL – O senhor esperava que isso ocorresse dentro de um hospital filantrópico?
Tosca – A Santa Casa não merece passar por isso. Eu nunca imaginei que seria vítima de uma quadrilha que, infelizmente, não sei identificar quem é quem. Hoje, eu tenho problemas na cidade de Santos por causa de uma atitude criminosa.
DL – O senhor quer que essas pessoas sejam descobertas e punidas?
Tosca – Elas vão ser punidas. Se não for pela justiça dos homens, serão pela de Deus, porque por aqui não passa nada batido.
Confira alguns trechos das conversas telefônicas obtidas no laudo
Tosca -… vou te falar mais uma vez, eu não faço nada errado.
Homem – …você deixa esse discurso depois pros seus funcionários e vamos no que interessa, tudo bem?
Tosca – …mas eu não tô falando de discurso, meu amigo.
Homem – …eu não vou ficar te ligando não, entendeu?
Homem – …Tosca, se você faz ou não faz, isso é problema seu, tá? Aqui, sempre foi assim e não vai ser diferente com você, entendeu?
Homem – …nós contamos com isso por muitos anos. Você tá chegando agora.
Tosca – …mas você tá querendo dizer o quê?
Homem – …Tosca, cê não tá entendendo. Vou falar novamente. Você quer parceria ou não?
Tosca – …não faço parceria pela milésima vez. E vocês estão judiando da gente. Não é assim que a gente conduz.
Homem – …você acha que é muito?
Tosca – …o que? O que é muito?
Homem – …o valor que eu falei pra você na outra vez.
Tosca – …os R$ 20 mil por mês?
Homem – …é. Tosca, com um contrato desse, o que é R$ 20 mil?
Tosca – …nosso Deus, hein, vocês são…isso é uma quadrilha, hein?
Homem -…é não, isso aqui é coisa do dia a dia aqui, tá? Pode ser novidade pra você, pra nós, isso aqui é rotina.
Versão da Santa Casa
Procurada para dar sua versão sobre a questão, a atual Provedoria da Santa Casa enviou nota não tocando no nome da Five Star e nem comentando sobre o episódio descrito por Tosca de Almeida, pois a empresa já não estava no hospital quando a nova administração assumiu, em 19 de fevereiro último.
Resumiu somente revelando sua relação com a empresa que substituiu a Five Star, dizendo que imediatamente a empresa Centro, responsável pelo serviço de limpeza e conservação do hospital após a Five Star, foi comunicada do não interesse da instituição na manutenção do contrato.
A Santa Casa revela que desde abril a limpeza e conservação do hospital é realizada por pessoal próprio. Foram contratados 260 colaboradores para o serviço e com a medida foram economizados algo em torno de R$ 1 milhão por mês.
