Mesmo sem comprovação científica da eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento contra a Covid-19, o Ministério da Saúde quase quintuplicou a distribuição dos remédios a estados e municípios durante a pandemia.
Ao mesmo tempo, faz uma nova tentativa de desovar na rede pública doses doadas pelos Estados Unidos que estão paradas em estoque.
Dados obtidos pela reportagem por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que, de março a julho deste ano, já foram enviados 6,3 milhões de comprimidos de cloroquina, na dosagem de 150mg, para abastecer as unidades do SUS (Sistema Único de Saúde).
É 455% a mais do que o repassado no mesmo período do ano passado (1,14 milhão), quando a aplicação se dava apenas em terapias contra a malária e outras doenças.
Até julho, cerca de 5 milhões de comprimidos foram remetidos pela pasta só para uso em pacientes com o novo coronavírus – já são 5,6 milhões agora.
Os envios aceleraram em maio e junho, coincidindo com uma escalada na campanha do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em defesa do medicamento, o que levou à queda dos ministros Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.
Eles eram contrários à ampliação da oferta, restrita inicialmente a casos graves. Após a saída dos dois, o ministério estendeu a indicação também para quadros leves.
Alçado ao cargo, o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, atribui o aumento na distribuição às demandas de estados e municípios.
No entanto, dados levantados pela reportagem com secretarias estaduais de Saúde mostram que, em alguns casos, a quantidade recebida foi superior à usada na rede.
No Distrito Federal, por exemplo, só foram consumidos 36% dos comprimidos enviados até abril. No Paraná, o percentual é o mesmo.
Em São Paulo, a secretaria diz ter recebido 986 mil comprimidos, mas está devolvendo 450 mil, a pedido do ministério, para redistribuição.
Questionada sobre a devolução, a pasta estadual diz que as remessas iniciais foram definidas pelo ministério com base no número de casos confirmados de Covid-19, mas que desde maio tem informado não precisar de mais envios.
Mesma situação ocorre no Rio de Janeiro, onde a secretaria diz que não precisa de mais remessas e tem estoque para mais três meses.
Por outro lado, há também quem diga ter solicitado mais doses a pedido de municípios, caso de Minas Gerais.
