Um exemplo emblemático é a pawpaw, uma fruta nativa de áreas temperadas da América do Norte / Reprodução
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Entre as contradições do sistema alimentar contemporâneo, uma das mais curiosas é o desaparecimento de frutas altamente nutritivas das prateleiras.
Mesmo oferecendo benefícios importantes à saúde, muitas espécies nativas deixaram de circular em feiras e mercados ao longo das últimas décadas.
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Em várias regiões do mundo, frutas que já fizeram parte da alimentação cotidiana de comunidades inteiras foram gradualmente substituídas por variedades selecionadas principalmente pela durabilidade.
Em vez de priorizar o teor de minerais ou vitaminas, a cadeia de abastecimento moderna tende a favorecer frutas capazes de suportar longos trajetos, armazenamento prolongado e manipulação intensa sem perder a aparência.
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Um exemplo emblemático é a pawpaw, uma fruta nativa de áreas temperadas da América do Norte. Estudos apontam que ela pode apresentar até dez vezes mais cálcio do que a maçã e de 20 a 70 vezes mais ferro, dependendo do estágio de maturação.
Apesar desse perfil nutricional expressivo, a pawpaw quase desapareceu do cotidiano urbano. Hoje, ela é pouco encontrada em supermercados e costuma aparecer apenas em contextos específicos, como feiras locais, projetos de conservação ou em quintais mantidos por entusiastas de frutas raras.
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Historicamente, a fruta foi amplamente consumida em áreas rurais e por comunidades que dependiam diretamente dos recursos naturais da floresta. Atualmente, permanece presente em ambientes naturais e em iniciativas de preservação da agrobiodiversidade, mas raramente chega às grandes redes de varejo.
Do ponto de vista nutricional, frutas nativas como a pawpaw se destacam pela alta densidade de minerais. O cálcio presente na polpa contribui para a saúde dos ossos, músculos e sistema nervoso, enquanto o ferro é essencial para a formação de hemácias e para o transporte de oxigênio no organismo.
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Além disso, algumas dessas frutas reúnem os nove aminoácidos essenciais — algo incomum em alimentos desse grupo. Em certos casos, também apresentam boas quantidades de fibras solúveis, compostos antioxidantes e vitaminas do complexo B, reforçando seu potencial em uma alimentação equilibrada.
Apesar do valor nutricional, fatores logísticos costumam pesar mais na decisão sobre quais alimentos chegam aos supermercados. Muitas frutas nativas amadurecem rapidamente, têm polpa macia e casca delicada, o que reduz sua vida útil após a colheita.
A pawpaw é um exemplo claro desse desafio. O fruto amadurece em poucos dias e pode se deteriorar rapidamente fora da árvore. Em cadeias de abastecimento que dependem de transporte por longas distâncias e armazenamento prolongado, essas características se tornam um obstáculo.
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Assim, frutas ricas em nutrientes acabam perdendo espaço para variedades mais resistentes, capazes de suportar semanas em caixas refrigeradas, empilhamento durante o transporte e exposição prolongada nas gôndolas.
Além do valor nutricional, essas frutas também carregam importância cultural e ecológica. Durante séculos, muitas delas fizeram parte da alimentação tradicional de diferentes comunidades, que baseavam suas dietas na disponibilidade local e no conhecimento acumulado sobre o ambiente.
Árvores frutíferas nativas também desempenham funções relevantes nos ecossistemas. Elas oferecem alimento e abrigo para aves, insetos e pequenos mamíferos. No caso da pawpaw, por exemplo, determinadas espécies de polinizadores e animais dependem de seus frutos como parte da cadeia alimentar.
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Quando o cultivo dessas plantas desaparece, o impacto vai além da alimentação humana. A redução dessas espécies pode afetar a biodiversidade, a segurança alimentar e a resiliência de ecossistemas inteiros.
No sistema alimentar atual, ter mais nutrientes do que a maçã não é suficiente para garantir espaço nas prateleiras. Outros fatores costumam ter mais peso nas decisões de produção e distribuição.
Entre eles estão a durabilidade pós-colheita, a capacidade de suportar refrigeração prolongada, a resistência ao transporte e a previsibilidade da maturação.
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De forma geral, o caminho de uma fruta até o supermercado envolve etapas que favorecem variedades mais padronizadas:
Frutas sensíveis e altamente perecíveis acabam ficando em desvantagem nesse modelo.
Apesar da ausência nas grandes redes varejistas, algumas frutas nativas começam a reaparecer em iniciativas locais. Projetos de agrofloresta, agricultura regenerativa, feiras de produtores e hortas comunitárias têm resgatado essas espécies como alternativa para cadeias alimentares mais curtas.
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Nesses contextos, a pawpaw tem sido valorizada tanto pelo valor nutricional quanto pelo potencial gastronômico. A fruta pode ser utilizada em produtos artesanais, como polpas, sorvetes, doces e geleias, além de integrar experiências de turismo gastronômico.
Com o aumento do interesse por alimentos naturais e produção local, cresce também o debate sobre diversidade alimentar e preservação da biodiversidade. Nesse cenário, frutas nativas antes esquecidas podem voltar a ganhar espaço — especialmente em mercados regionais que valorizam nutrição, cultura e sustentabilidade.