Saúde

Exame de sangue para depressão? USP descobre genes alterados que revelam a doença

Pesquisa identifica 18 genes marcadores que funcionam como 'espelhos' do cérebro

Luna Almeida

Publicado em 04/04/2026 às 08:55

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O grupo identificou 1.383 genes com expressão alterada nos leucócitos de pessoas deprimidas / Freepik

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Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram que a depressão não é um fenômeno restrito ao cérebro, mas uma condição sistêmica que altera a expressão genética até mesmo nas células de defesa do organismo. 

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O estudo revelou que genes tradicionalmente ligados à comunicação entre neurônios (sinapses) aparecem desregulados nos glóbulos brancos de pacientes com transtorno depressivo maior.

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A investigação, coordenada pelo professor Otávio Cabral-Marques, da Faculdade de Medicina (FM) da USP, e que contou com o trabalho de doutorado de Anny Silva Adri, mapeou uma rede de interação entre os sistemas imunológico e nervoso. 

Segundo os autores, essa conexão explica por que pacientes com depressão frequentemente apresentam sintomas físicos, como inflamações na pele ou alterações no apetite. O projeto recebeu apoio da FAPESP por meio de quatro frentes de financiamento. 

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O mapeamento genético e a "ponte" entre sistemas

Para chegar a esses resultados, os cientistas utilizaram técnicas de ciência de dados para analisar mais de 3 mil amostras de sangue de bancos públicos da Alemanha, França e Estados Unidos. O grupo identificou 1.383 genes com expressão alterada nos leucócitos de pessoas deprimidas.

Deste total, os pesquisadores destacaram pontos fundamentais:

73 genes compartilhados: Estes genes, conhecidos por atuarem na formação de conexões neurais e transmissão de neurotransmissores no cérebro, também participam de vias inflamatórias no sistema imune.

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18 genes marcadores: Um subgrupo de dezoito genes permitiu distinguir, de forma consistente, os pacientes com depressão de indivíduos saudáveis.

Indicadores biológicos: Como o sangue é mais acessível que o tecido cerebral, esses genes funcionam como "espelhos" do que ocorre no sistema nervoso central, servindo como potenciais indicadores da presença e severidade da doença.

Depressão como uma doença do corpo inteiro

A pesquisa reforça que a divisão entre sistema imunológico e neurológico é, muitas vezes, apenas didática. O grupo já havia demonstrado em modelos animais que o gene PAX-6, presente em ambos os sistemas, atua como um preditor da depressão. Conheça alguns alimentos que podem ser aliados no tratamento contra a depressão.

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A análise sugere que a desregulação molecular observada na depressão está conectada a diversas comorbidades. Os mesmos genes alterados no transtorno aparecem ligados a outras condições, tais como:

Saúde Mental: Bipolaridade, ansiedade e psicoses.

Saúde Cardiovascular: Hipertensão e doenças arteriais.

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Inflamações e Outros Sistemas: Psoríase, manifestações gastrointestinais, disfunção erétil e complicações relacionadas ao coronavírus.

Perspectivas para diagnóstico e tratamento

Para a pesquisadora Anny Silva Adri, o estudo abre a possibilidade de criar, no futuro, um painel de genes para diagnóstico via exame de sangue. 

Além disso, a conexão entre a inflamação periférica (no sangue) e os sintomas centrais (no cérebro) sugere novas abordagens terapêuticas. Tratar a inflamação do organismo pode se tornar uma via complementar para aliviar os sintomas depressivos.

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Embora os achados ainda precisem de confirmação biológica adicional, eles representam um avanço significativo na compreensão da depressão como uma patologia integrada e molecular, que afeta o organismo de forma multiorgânica e exige um olhar clínico que vá além do sistema nervoso central.
 

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