Reduzir Heleninha ao diagnóstico de alcoolismo é um erro, alerta psicólogo

Psicólogo analisa episódio de recaída com álcool em novela da TV Globo e destaca sofrimento emocional por trás do vício

Heleninha já protagonizou diversos surtos durante a novela

Heleninha já protagonizou diversos surtos durante a novela | Globo/Fábio Rocha

No capítulo de terça-feira (29) da novela Vale Tudo, a personagem Heleninha Roitman (Paolla Oliveira) protagonizou cenas marcantes e carregadas de emoção. 

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Embriagada após uma nova recaída, ela vagou pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro, se colocou em situação de risco ao entrar em um hotel com um desconhecido, e escapou de um possível abuso. 

Em seguida, protagonizou um escândalo no bar do mesmo hotel, sendo contida por seguranças após destruir o local em surto, com vídeos do episódio viralizando nas redes sociais. Assista o momento abaixo:

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As cenas fortes deram ainda mais profundidade ao drama de Heleninha, que lida com o alcoolismo ao longo da vida e com forte recaída desde que Ivan (Renato Góes) pediu a separação. 

A personagem tem oscilado entre tentativas de recuperação e recaídas intensas, revelando um sofrimento que vai além do vício – e que, segundo um especialista ouvido pelo Diário do Litoral, tem raízes emocionais mais profundas.

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Além do álcool: um sintoma de feridas antigas

Para o psicólogo Danilo Suassuna, diretor do Instituto Suassuna, não se pode reduzir Heleninha ao diagnóstico de alcoolismo. O vício é, na verdade, a resposta que ela encontrou para lidar com o caos emocional que carrega desde a infância.

Heleninha cresceu em meio à ausência afetiva da mãe, vínculos frágeis e experiências precoces de rejeição. Isso a levou a desenvolver formas de se proteger emocionalmente, como afastar quem se aproxima e mergulhar em comportamentos destrutivos. 

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Segundo Suassuna, o uso do álcool surge como uma tentativa legítima de sobrevivência psíquica.

“O álcool organiza, ainda que de forma trágica, o caos interno. Quando bebe, Heleninha se permite não sentir. O copo substitui o colo”, explica o psicólogo.

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Esquivas emocionais e vínculos inseguros

De acordo com o especialista, na visão da Gestalt-terapia, Heleninha usa frequentemente o mecanismo de deflexão, evitando o contato com sua dor real por meio de impulsos, distrações e relações turbulentas. 

Seus relacionamentos são marcados por intensidade e rompimentos abruptos, reflexo de um apego inseguro, alimentado pela expectativa constante de abandono.

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Ela idealiza o amor, mas o antecipa com o medo da rejeição. Segundo Suassuna, esse padrão é um reflexo de um ciclo de contato interrompido ainda na infância. “Ela abandona antes de ser abandonada. Destrói antes que doa”, explica.

O abandono materno como trauma persistente

A ausência da mãe durante a infância não é apenas uma lembrança dolorosa, mas uma presença viva em sua vida adulta. Essa figura emocional influencia diretamente como ela se relaciona com o mundo e com as pessoas.

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Heleninha cresceu sem espelhamento, sem acolhimento, sem confiar em ninguém – nem nela mesma. Assim, aprendeu que o amor exige esforço constante para ser merecido, e suas relações tornam-se negociações inconscientes por afeto.

Quando a recaída é um pedido de ajuda

O psicólogo defende que recaídas, como a vista no capítulo mais recente da novela, não devem ser tratadas com moralismo ou como falhas de caráter. Para ele, são formas de proteção. Heleninha hesita em avançar porque teme ser ferida novamente. Seu histórico a ensinou que o novo pode ser perigoso – inclusive em contextos terapêuticos.

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“A não adesão aos combinados, o retorno ao álcool, a sabotagem do processo terapêutico… tudo isso é medo. Não maldade. Ela precisa sentir que pode falhar e ainda assim ser acolhida”, destaca Suassuna.

Caminho possível: escuta, vínculo e paciência

O tratamento, nesses casos, não é sobre corrigir comportamentos, mas oferecer um espaço seguro para que o paciente se reconecte com a própria história. 

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Com Heleninha, o psicólogo reforça que é preciso respeitar o tempo, tolerar os silêncios e construir uma relação terapêutica que seja firme, mas não invasiva.

“O que cura, aqui, não é a técnica nem a meta alcançada. É a experiência relacional de confiança, cuidado e liberdade para experimentar novas formas de estar no mundo.”

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Heleninha não é um “caso difícil” – ela é o retrato de alguém tentando sobreviver às marcas de uma infância sem acolhimento. E sua trajetória, embora dolorosa, ainda pode ser um convite para recomeçar.