Por que os quadrinhos ainda são a primeira leitura de milhões de crianças?

No Dia do Livro, especialistas destacam o papel das HQs no incentivo à leitura e o preconceito que ainda cerca o gênero.

Mesmo fora da categoria de "literatura", HQs e mangás seguem formando gerações de leitores no Brasil e no mundo.

Mesmo fora da categoria de "literatura", HQs e mangás seguem formando gerações de leitores no Brasil e no mundo. | Divulgação/Kaiju Editora

No Dia do Livro, celebrado em 23 de outubro, surge uma questão importante no mundo literário. Como incentivar a leitura nos primeiros anos escolares?

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É comum recorrer às histórias em quadrinhos (HQs), que, com seu apelo visual, conquistam a atenção dos leitores. Mas e se o primeiro “livro” de uma criança não for, de fato, um livro?

Segundo Mauro de Abreu, editor-chefe da Kaiju Editora, há um consenso entre quadrinistas e estudiosos: os quadrinhos não são considerados literatura, mas sim uma forma de arte à parte, assim como o cinema e o teatro.

Apesar de uma queda desde os anos 2000, as HQs seguem populares entre o público infantil. E um nome se destaca há mais de seis décadas: Turma da Mônica. 

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O fenômeno de Mauricio de Sousa permanece relevante. De acordo com a Bookinfo, seis dos dez quadrinhos mais vendidos em 2024 são da Turma da Mônica, incluindo o segundo lugar no ranking.

Há mais de seis décadas, a Turma da Mônica segue encantando gerações  e continua entre os quadrinhos mais vendidos do Brasil, mostrando que o interesse pelas HQs nacionais permanece vivo. /UnsplashHá mais de seis décadas, a Turma da Mônica segue encantando gerações — e continua entre os quadrinhos mais vendidos do Brasil, mostrando que o interesse pelas HQs nacionais permanece vivo. /Editora Panini

Mangá: o rei do quadrinho

Segundo a Bookinfo, os mangás continuam sendo o principal motor do setor de quadrinhos no Brasil, representando 46,7% das vendas. Esse sucesso é sustentado pelo público jovem e pela influência da cultura pop japonesa.

Parte desse fenômeno se deve à forte conexão que os mangás estabelecem com os leitores mais novos, alimentada tanto pela ascensão da cultura asiática quanto pela diversidade de gêneros. E essa tendência não se limita ao Brasil, países como EUA e França também a acompanham.

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Outro fator, de acordo com Mauro de Abreu, é a estrutura narrativa.“Os mangás têm começo, meio e fim. Mesmo os mais longos facilitam o entendimento de por onde começar, diferentemente das HQs de super-heróis americanas”.

A indústria cultural asiática, multimilionária, já influencia diversas áreas da TV, com os doramas, à música, com o K-pop. Seguindo os passos dos mangás japoneses, as HQs coreanas e chinesas começam a ganhar espaço.

Entre os títulos mais comentados, Jujutsu Kaisen aparece como a HQ mais vendida, em especial o volume 1 de Batalha de Feiticeiros, da Panini. A série ainda emplaca outros dois volumes no top 10: Jujutsu Kaisen 0 em quarto lugar e o volume 2 de Batalha de Feiticeiros em décimo.

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A primeira leitura

Os quadrinhos são obras completas e diversificadas, capazes de estimular a leitura, a interpretação e a reflexão. Apesar de serem, para muitos, o primeiro contato com a leitura, ainda existe um estigma em torno de “quem lê quadrinhos”.

De acordo com Mauro de Abreu, os quadrinhos são fundamentais no processo de alfabetização, mas não substituem a literatura tradicional. 

“Fui pré-alfabetizado em casa com quadrinhos, e isso facilitou muito meu desenvolvimento escolar e profissional. O único erro, na minha visão, é que muitos educadores os tratam como uma ‘porta de entrada’ para leituras mais importantes, quando, na realidade, não deveria ser uma relação excludente”, afirma.

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Quadrinhos como ferramenta educacional

As histórias em quadrinhos funcionam como uma importante porta de entrada para o mundo da literatura, contribuindo para o desenvolvimento de hábitos de leitura, interpretação textual e habilidades de redação. 

No entanto, seu potencial vai além, assim como ocorre com a literatura tradicional, os quadrinhos abrangem uma ampla variedade de gêneros e temas, atendendo a diferentes idades e propósitos, do entretenimento puro à reflexão profunda.

Mauro ressalta, porém, a necessidade de maior reconhecimento e uso consciente desse recurso. 

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“Acredito que os educadores precisam ser apresentados, de maneira adequada e séria, a essas possibilidades. Mas isso também reflete, até certo ponto, uma falha de nossa classe artística, que deveria lutar mais por esse reconhecimento junto ao governo”.

Segundo a professora particular Tainá Azevedo, os gibis e histórias em quadrinhos servem como um valioso complemento ao processo de aprendizagem. Sua principal vantagem está na linguagem acessível e na utilização de personagens já conhecidos pelas crianças, o que facilita a identificação com as situações apresentadas e a compreensão do conteúdo.

“A criança interpreta o texto com mais facilidade ao se conectar com a história por meio de personagens familiares”, explica Tainá. “O gibi da Turma da Mônica, muito popular durante a alfabetização, traz linguagem simples e conflitos típicos da infância, elementos que facilitam a aquisição e a prática da leitura”.

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Ampliação do repertório linguístico e visual

Por oferecerem uma porta de entrada acessível ao universo letrado, as HQs permitem que as crianças desenvolvam naturalmente o hábito da leitura. Esse contato prazeroso as incentiva a se envolver com o material e, assim, cultivar o gosto por ler.

Tainá ressalta que as histórias em quadrinhos integram múltiplas camadas de aprendizado como onomatopeias, balões de fala variados, elementos linguísticos e expansão do vocabulário.

Dessa forma, além de se identificar facilmente com o formato, a criança tem acesso a uma diversidade de informações e estilos textuais, ampliando suas possibilidades de imersão no mundo letrado de maneira lúdica e significativa.

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