Se relacionar nunca foi tão desafiador, e isso não é apenas impressão. Dados do IBGE mostram aumento nos divórcios no Brasil, enquanto pesquisas do Pew Research Center apontam mais pessoas solteiras e dificuldade em manter vínculos duradouros.
Mais do que um fenômeno social, trata-se de uma mudança na forma de se conectar.
Segundo a terapeuta Lili Gonzalez, o problema não é a falta de amor, mas a desconexão interna.
“As pessoas estão tentando se relacionar a partir de um lugar fragmentado. Existe um vazio entre o que sentem e o que conseguem sustentar, e, na tentativa de preencher isso, buscam no outro aquilo que ainda não encontraram dentro de si.”
Relações rápidas, vínculos frágeis
Desde 2020, as experiências emocionais e digitais se intensificaram. Há mais estímulos, mais exposição — e, ao mesmo tempo, menos profundidade nas conexões.
“Hoje, tudo acontece muito rápido: você conhece, se envolve e se desconecta com a mesma velocidade.”
Esse cenário favorece relações mais superficiais, descartáveis e emocionalmente instáveis, criando uma falsa sensação de abundância.
O problema não está no outro
Segundo a especialista, os conflitos afetivos não nascem nas relações atuais — eles apenas se revelam nelas.
“As pessoas não estão com dificuldade de se conectar com o outro. Elas estão com dificuldade de se sustentar dentro de si.”
Nesse contexto, tornam-se frequentes padrões como a necessidade constante de validação, o medo de abandono, a dificuldade de se posicionar e a repetição de relações instáveis.
“O emocional não busca o que é saudável. Busca o que é familiar.”

Alta expectativa, baixa sustentação emocional
As exigências nas relações aumentaram, mas a maturidade emocional não acompanhou esse ritmo.
“As pessoas querem alguém emocionalmente disponível, mas muitas vezes não conseguem oferecer isso.”
O resultado aparece em forma de frustração, projeções e conflitos constantes.
Histórias que se repetem
Os vínculos afetivos não são construídos apenas no presente — eles carregam histórias.
Nós não nos relacionamos apenas como indivíduos. Nos relacionamos como história.”
Experiências passadas de rejeição, abandono e dor moldam escolhas afetivas, muitas vezes de forma inconsciente.
Quando o conflito escala
A falta de consciência emocional pode levar a desfechos mais graves.
“Quando o emocional não é elaborado, ele é descarregado.”
Isso pode resultar em relações abusivas, dependência emocional e até episódios de violência.
Os sinais aparecem antes
Antes de se tornarem abusivas, muitas relações já dão indícios claros, como controle disfarçado de cuidado, manipulação emocional, inversão de culpa e isolamento.
“Quem está dentro normaliza. Quem está fora enxerga.”
O caminho possível
Apesar do cenário desafiador, há uma mudança em curso.
“Estamos vivendo dois movimentos: relações descartáveis e um crescimento da consciência emocional.”
O ponto central não está no outro, mas no indivíduo. “Relacionamento saudável não começa no encontro. Começa no reencontro consigo mesmo.”
Amor não é carência — é escolha
Para a especialista, o amor saudável exige consciência. “Não é dependência. Não é necessidade. É escolha.”
E ainda há espaço para esperança. “Muitas pessoas não desacreditaram do amor — desacreditaram da dor que viveram achando que era amor.”
