Operários de mineração encontraram 2 mil moedas de ouro e 22 toneladas de cobre em embarcação que naufragou a caminho da Índia. / Reprodução/Getty imagens
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Parece roteiro de filme, um navio português desaparece em uma tempestade no Atlântico em 1533 e, quase 500 anos depois, é encontrado não no fundo do mar, mas soterrado no deserto da Namíbia.
Essa é a história real do Bom Jesus, uma carraca que zarpou de Lisboa rumo à Índia e naufragou na costa africana, só para ser redescoberta em 2008 por operários de uma mina de diamantes.
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O achado, considerado uma “cápsula do tempo” excepcional, revela com detalhes surpreendentes os mecanismos da primeira globalização comercial e financeira do século XVI.
O local do achado é parte do Sperrgebiet (“Área Proibída”), uma região desértica de 26 mil km² controlada pela mineradora Namdeb (parceria entre o governo da Namíbia e a De Beers).
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Em 1º de abril de 2008, durante escavações, máquinas toparam com madeiras antigas e milhares de moedas de ouro.
Especialistas explicam que, após o naufrágio, o navio foi soterrado por areia movida por ventos fortes. Com o tempo, a costa se deslocou, deixando os destroços centenas de metros para dentro do continente. O clima árido e a ausência de oxigênio sob a areia preservaram a estrutura de forma milagrosa.
A carga recuperada foi monumental: Mais de 40 toneladas de artefatos, incluindo 2.000 moedas de ouroportuguesas e espanholas.
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22 toneladas de lingotes de cobremarcados com o selo da família Fugger, os poderosos banqueiros de Augsburgo (atual Alemanha) que financiavam o comércio ultramarino português.
Marfim da África Ocidental, bem como objetos de bordo, armamentos e até um sapato de couro com um fragmento de osso do dedo do pé – o único vestígio humano encontrado.
“Este navio é uma testemunha material da primeira globalização: um sistema completo e intacto, congelado no tempo”, afirmou o Dr. Bruno Werz, diretor do Instituto Africano de Pesquisa Marinha e Subaquática.
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Entenda por que é tão comum navios no deserto com o vídeo do canal Costa dos Esqueletos:
A carga do Bom Jesus comprova uma complexa rede financeira transcontinental. Pesquisas em arquivos de Lisboa, conduzidas pelo historiador marítimo Alexandre Monteiro, revelaram que 20.000 cruzados em ouro foram transferidos de Sevilha para Lisboa semanas antes da partida da frota.
“O navio era um veículo de uma multinacional ibero-alemã rudimentar”, explica Monteiro. “Os Fugger forneciam o capital e o cobre, Portugal o know-how náutico, e a Espanha o ouro. Era um circuito financeiro oculto, mas essencial para as Grandes Navegações.”
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Em 2016, Portugal renunciou oficialmente aos direitos sobre o naufrágio, doando todo o acervo à Namíbia. Após quase uma década de estudos e conservação, os artefatos estão agora expostos no Museu Oranjemund, inaugurado em 2024.
O Bom Jesus nunca chegou à Índia, mas sua jornada de cinco séculos sob as areias terminou em triunfo: ele se tornou uma das mais importantes descobertas arqueológicas marítimas do mundo, uma janela concreta para os primórdios de um mundo interconectado por comércio, capital e ambição.
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