Múmia de 700 anos revela bactéria mortal que não deveria estar na América pré-Colombo

Ao buscarem pelo genoma humano em múmias pré-incaicas, pesquisadores encontram, pela primeira vez na arqueologia, vestígios de estreptococo em um jovem com sinais de baixa imunidade e desnutrição

Múmia de jovem morto há 700 anos guarda DNA de bactéria responsável por infecções graves/Reprodução

Um estudo publicado no dia 13 de abril na revista Nature Communications revelou a presença da bactéria Streptococcus pyogenes em uma múmia de um jovem andino morto há 700 anos.

Surpreendentemente, a pesquisa, que inicialmente buscava identificar o genoma humano da época, pode agora contar um pouco mais sobre a história ambiental da América antes da chegada dos europeus.

A coleta e a análise

Antes de tudo, é preciso explicar que, na região andina, a mumificação de pessoas era comum – e os mortos não necessariamente pertenciam à nobreza ou a classes mais “elevadas”. Assim, entendendo esse contexto, podemos falar sobre o estudo que ocorreu na região andina.

Os pesquisadores vasculharam antigas múmias encontradas nas “chullpas” , um tipo de torre funerária localizada no Planalto Andino da Bolívia. Desse modo, ao analisar os corpos e o DNA desses indivíduos, eles poderiam compreender condições genéticas e até mesmo doenças da população daquele período.

Sobretudo, as múmias investigadas pertenciam ao Período Intermediário Tardio (1000 a 1450 d.C.) . Este período ficou caracterizado como uma fase transitória entre o colapso da cultura Tiwanaku e a ascensão do Império Inca.

Desse modo, ao analisar uma múmia de um rapaz morto há 700 anos, os pesquisadores encontraram o DNA da Streptococcus pyogenes – bactéria responsável pela escarlatina e outras doenças.

Conforme os pesquisadores, essa foi a primeira vez que a Streptococcus apareceu em vestígios arqueológicos. Em um comunicado, o diretor do Instituto de Pesquisa Eurac para Estudos de Múmias, Frank Maixner, afirmou:

“Não estávamos procurando por esse patógeno especificamente. […] Ao conduzir a análise genética de múmias, abordamos o trabalho com a mente aberta, analisando não só o material genético humano mas também o DNA dos inúmeros microrganismos presentes nos restos humanos.”

A doença ontem e hoje

De acordo com a revista Live Science, o estreptococo do grupo A é encontrado globalmente nos dias de hoje. Desde infecções de garganta até contaminações com risco de vida, tudo está no espectro de ação da bactéria.

Ademais, esse mesmo microrganismo é responsável pela escarlatina – doença que, historicamente, foi uma das principais causas de mortalidade na infância antes do desenvolvimento dos antibióticos, na década de 1940.

Apesar de hoje a bactéria estar espalhada pelo mundo todo, até então não havia evidências desse patógeno na América pré-colombiana. Ademais, os cientistas desconfiam que o contágio possa ter ocorrido por meio do contato com animais isolados nos Andes.

De qualquer modo, o corpo do rapaz contaminado pela Streptococcus pyogenes veio de um momento histórico de alta densidade populacional e de uma região com altas taxas de migração. Isso pode indicar que outras pessoas também se contaminaram na época.

Já a sua fisiologia nos dá outra dica: a partir dos ossos, é possível identificar que o jovem estava abaixo da média nutricional da época. O que pode ser um indício de fraqueza imunológica e maior suscetibilidade a infecções.

Todavia, os pesquisadores anunciaram que são necessários mais estudos sobre a doença e sobre outros corpos contaminados com a bactéria para que possam tirar conclusões satisfatórias.