A participação de Sérgio Vieira ocorre justamente por causa do livro Raimundos O show que nunca terminou / Divulgação
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O jornalista e escritor santista Sérgio Vieira está entre os entrevistados do documentário ‘Andar na Pedra – A História dos Raimundos’, produção que estreia no dia 19 de março no streaming Globoplay.
A série revisita a trajetória de uma das bandas mais populares do rock nacional e inclui um capítulo dedicado à tragédia ocorrida durante um show do grupo no Clube de Regatas Santista, em 1997.
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O episódio ganhou destaque na produção dirigida por Daniel Ferro, que reúne depoimentos de integrantes da banda, artistas e jornalistas.
A participação de Sérgio Vieira ocorre justamente por causa do livro ‘Raimundos – O show que nunca terminou’, obra em que ele reconstrói em detalhes o acidente que deixou oito jovens mortos e marcou a história da cidade e do próprio grupo.
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Produzida pela Ferrorama, a série documental chega ao catálogo com cinco episódios que abordam desde a formação da banda em Brasília, no fim dos anos 1980, até os momentos de maior sucesso e os conflitos internos que marcaram a trajetória do grupo responsável por álbuns como ‘Lavô Tá Novo’ e ‘Só no Forévis’.
Além de entrevistas atuais, o material reúne registros inéditos e depoimentos históricos, incluindo uma participação do baixista Canisso antes de sua morte.
Um dos capítulos mergulha no episódio ocorrido em 8 de novembro de 1997, durante o show de abertura da turnê do disco ‘Lapadas do Povo’.
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Ao fim da apresentação, cerca de seis mil pessoas tentaram deixar o ginásio do clube praticamente ao mesmo tempo.
Apenas uma escada estava liberada para a saída do público e, com o tumulto, os corrimãos cederam. Centenas de jovens caíram de uma altura aproximada de cinco metros, provocando a morte de oito pessoas.
Essa tragédia foi o ponto de partida para a investigação que Sérgio Vieira transformou em livro e que agora será revisitada na série.
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Publicado no ano em que o acidente completou duas décadas, o livro de Sérgio Vieira reúne relatos de sobreviventes, familiares das vítimas e documentos oficiais sobre o caso. A obra foi construída a partir de entrevistas extensas com pais e mães dos jovens que morreram na tragédia.
O autor explica que a motivação para escrever surgiu ao perceber que a cidade parecia ter deixado o episódio no passado.
Segundo ele, o livro foi pensado como um tributo às vítimas.
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“Na época, eu disse que a obra era uma espécie de homenagem a esses jovens que, naquele momento, chegaram a ser tratados como culpados. Mas eles foram vítimas da negligência, da ganância e da falta de estrutura adequada para um evento daquele porte”, afirma.
Na avaliação do jornalista, a cidade acabou deixando de manter viva a lembrança do episódio.
“Não existe um memorial, não existe um marco físico que lembre o que aconteceu ali. Na minha visão, deveria haver um monumento próximo ao local onde ficava o Regatas. A gente só consegue evitar novas tragédias quando lembra das que já aconteceram”, diz.
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Durante a produção do livro, Sérgio Vieira entrevistou familiares das oito vítimas fatais. Os relatos marcaram profundamente o jornalista e seguem vivos em sua memória.
“O que mais me impactou foi perceber que a dor dessas mães nunca diminuiu. Mesmo depois de quase 30 anos, essa ferida continua aberta”, relata.
Para ele, o contato com as famílias revelou a dimensão humana do caso.
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“Foram conversas muito emocionantes. A perda foi causada por uma responsabilidade que não era das vítimas, nem das famílias. Esse sentimento permanece até hoje.”
A investigação documental reunida no livro também revelou uma série de problemas estruturais e falhas na organização do evento. Segundo o jornalista, as irregularidades iam muito além da falta de segurança.
“A investigação mostrou que havia muitas falhas. Não havia segurança suficiente, não havia ambulância, enfermeiros ou paramédicos. Quando começou o socorro, as pessoas precisaram usar gelo que estava em bares próximos”, afirma.
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O próprio espaço apresentava problemas graves de infraestrutura.
“Os corrimãos estavam completamente desgastados, havia ferros expostos e fiação solta. Além disso, praticamente toda a saída do público foi concentrada em uma única escada. Era uma estrutura totalmente inadequada para um evento com cerca de seis mil pessoas.”
O episódio também deixou marcas profundas na própria banda Raimundos, que na época vivia o auge da carreira.
Segundo Sérgio Vieira, o impacto emocional foi tão grande que o grupo chegou a cogitar interromper as atividades.
“O impacto foi muito forte para eles. A banda estava iniciando uma turnê e o primeiro show era justamente em Santos. Depois da tragédia, tudo foi interrompido”, lembra.
Ele relata que o vocalista e guitarrista Digão chegou a associar o episódio a outra perda pessoal.
“O Digão comentou comigo que aquilo trouxe de volta a lembrança da morte do irmão dele, que havia falecido em um acidente de moto anos antes. Então foi algo muito pesado também para os integrantes.”
Ao ser convidado para participar do documentário, Sérgio Vieira voltou a revisitar os documentos e relatos que marcaram a produção do livro.
“Foi um momento triste relembrar tudo aquilo, principalmente ao revisitar o relatório do Ministério Público, que descreve em detalhes como a tragédia aconteceu. Aquilo foi tudo, menos um acidente”, afirma.
Mesmo com a carga emocional, o jornalista considera importante que a história seja contada novamente.
“Fiquei muito feliz e honrado de participar. Saber que o meu livro serviu de base para um capítulo do documentário mostra que esse episódio não foi esquecido.”
Ele lembra ainda que o depoimento para a produção foi gravado em 2024, o que mostra o longo processo de construção da série.
“É um trabalho que vem sendo feito há anos. Desde então o diretor reuniu muitos depoimentos e materiais para contar essa história.”
Para o escritor, o documentário também tem um papel importante ao levar esse capítulo da história de Santos para pessoas que talvez nunca tenham ouvido falar do acidente.
“Já se passaram quase 30 anos. Existe uma geração que conhece os Raimundos apenas pelas músicas no YouTube e não viveu aquele período”, explica.
Segundo ele, a produção ajuda a conectar a trajetória da banda com o episódio ocorrido na cidade.
“A série mostra a importância da banda para o rock brasileiro, mas também revela que a história deles tem uma ligação direta com Santos.”
Depois do livro e da participação no documentário, Sérgio Vieira acredita que a principal lição deixada pelo episódio está relacionada à segurança em eventos com grande público.
“Esse caso mostra que a cidade tem o dever de garantir a segurança de quem frequenta locais de grande concentração. O poder público precisa fiscalizar e fazer a sua parte.”
Ele também destaca a importância da cobrança da sociedade.
“A população também precisa exigir isso. As pessoas têm o direito de ir a um show, a um evento, e voltar para casa em segurança.”
Para o jornalista, manter viva a memória da tragédia é uma forma de evitar que situações semelhantes se repitam.
“Lembrar do que aconteceu é fundamental para que erros como aqueles nunca mais se repitam.”