Fernanda Montenegro é considerada a Dama do Teatro Brasileiro / Divulgação
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Descrever Fernanda Montenegro em palavras é pouco, dada a importância da atriz para a dramaturgia brasileira. Com 96 anos de vida e quase 80 de carreira — além de ter sido a primeira brasileira a receber uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz por seu trabalho em "Central do Brasil" —, a veterana deu vida a diversos personagens icônicos e segue dando uma lição de vitalidade.
Na noite de 20 de fevereiro, a atriz foi a atração principal na reabertura do teatro do Sesc Santos, cujos ingressos esgotaram em menos de cinco minutos. Na ocasião, Fernanda realizou sua aclamada leitura da obra “A Cerimônia do Adeus”, de Simone de Beauvoir.
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Sob uma forte iluminação no centro do palco, acompanhada de uma trilha sonora pontual, ela estava sentada, vestindo preto, tendo ao lado apenas um copo com água e uma pilha de papéis. Ao colocar os óculos, ainda fez uma graça com o público, que sabia que, daquele ponto em diante, veria uma transformação acontecer diante de seus olhos.
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Durante 70 minutos, a intérprete de Dora se transformou em Simone; não apenas leu o texto, mas encarnou a filósofa e ativista feminista em diversos aspectos. Em seu prólogo, a obra retrata experiências vividas por Simone, seguidas por reflexões sobre como ela acreditava que a sociedade deveria ser.
Entretanto, o verdadeiro foco era sua relação com o filósofo Jean-Paul Sartre, com quem manteve um relacionamento aberto até o falecimento dele, sempre enaltecendo sua companhia e atitudes, por mais que algumas fossem questionáveis. Entre momentos emocionantes e impactantes, Fernanda ainda fez o público rir ao transpor, com naturalidade, a paixão entre Simone e Jean.
Com o desfecho da apresentação, por volta das 21h18, o teatro do Sesc Santos foi dominado por aplausos. A veterana posicionou-se ao centro e não apenas agradeceu aos presentes, mas também reforçou que aquela era uma despedida dos palcos.
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A presença e a importância de Fernanda para a cultura nacional são imensas, não apenas pelo reconhecimento internacional em premiações como o Oscar e o Festival de Berlim (onde venceu o Urso de Prata por "Central do Brasil"), mas pela entrega orgânica em seus papéis.
Graças à sua atuação como Dora, ícones como Ian McKellen e Glenn Close já demonstraram não apenas respeito pela veterana, mas indignação pelo fato de ela ter perdido a estatueta dourada para Gwyneth Paltrow — que, até hoje, demonstra certo desprendimento em relação ao seu próprio Oscar.
Mesmo sem ter vencido o principal prêmio do cinema mundial, Fernanda permanece como uma das votantes da Academia, ao lado de outros brasileiros como sua filha, Fernanda Torres, além de Selton Mello e Wagner Moura. Contudo, não é um prêmio que define o talento de Montenegro.
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Seja interpretando vilãs como Bia Falcão, na aclamada novela "Belíssima", ou Nossa Senhora, em "O Auto da Compadecida", é notável como ela sempre transitou entre diferentes estilos, transparecendo a alma de suas personagens em cena.
Essa entrega é vista até mesmo em projetos recentes como "Vitória", gravado em 2022, no qual interpreta uma senhora que, sozinha, ajudou a desmantelar um esquema de tráfico em Copacabana.
Embora Fernanda tenha anunciado que fará mais apresentações de “A Cerimônia do Adeus” pelo Brasil, a veterana retornará às telonas no final de março em "Velhos Bandidos". A produção é dirigida por seu filho, Cláudio Torres, e conta com nomes como Ary Fontoura, Bruna Marquezine, Vladimir Brichta e Lázaro Ramos.
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Independente das gerações que virão, Fernanda Montenegro deixa um legado onde ela sempre será vista como a eterna dama da dramaturgia brasileira.