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'Extinção silenciosa': cientistas explicam por que a crise no Cerrado é um risco para o seu bolso

Estudo revela que a destruição do bioma já atingiu 55% e coloca em risco o abastecimento de energia e a produção de alimentos

Nathalia Alves

Publicado em 11/02/2026 às 15:46

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Novo estudo científico mostra que o Cerrado é o bioma que mais desaparece no país, com proteção legal insuficiente / Reprodução/Teo Neto / Wikipedia, CC BY

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O Cerrado, considerado a "caixa d’água" do Brasil e um dos ecossistemas mais biodiversos do mundo, atingiu um ponto de inflexão crítico. Uma revisão científica abrangente, publicada recentemente no periódico Nature Conservation, revela que mais de 55% da vegetação nativa do bioma já foi suprimida.

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Liderado pelo pesquisador Cássio Cardoso Pereira e com a colaboração do renomado cientista Philip Fearnside, o estudo consolida o Cerrado como o domínio natural que mais acumula perdas de cobertura original no país.

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Em entrevista ao The Conversation, o cenário descrito pelos pesquisadores é multifacetado, uma combinação de expansão desenfreada da agropecuária, incêndios de origem humana, contaminação por agrotóxicos e políticas de proteção legal que se mostram insuficientes para conter o avanço da degradação.

A "floresta invertida" e o erro das políticas de reflorestamento

Diferente das florestas tropicais, onde a biomassa se concentra nas copas das árvores, o Cerrado armazena cerca de 90% de seu carbono abaixo do solo. Esse sistema, apelidado de "floresta invertida", consiste em raízes profundas que não apenas sequestram gases do efeito estufa, mas regulam o fluxo hídrico das principais bacias do país.

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O estudo alerta que essa característica vital é ignorada em projetos de restauração mal orientados. "Iniciativas que priorizam o plantio de árvores exóticas em áreas de campos naturais podem agravar a degradação", aponta o relatório.

Os autores defendem que a arborização em massa seja substituída por estratégias que valorizem os bancos de sementes nativos e a recomposição da biomassa subterrânea.

Mosaico de ameaças e extinções silenciosas

O bioma é frequentemente confundido com uma savana homogênea, mas o estudo detalha um mosaico complexo de campos, savanas e florestas. Cada um enfrenta riscos específicos:

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  • Campos Rupestres: Áreas montanhosas ricas em espécies únicas, ameaçadas pela mineração.
  • Savanas: Alvos diretos da conversão em monoculturas de soja, milho e cana.
  • Veredas: Áreas alagadas essenciais para a água, que sofrem com o assoreamento e o fogo.

Os cientistas destacam ainda as "extinções silenciosas". Muitas espécies de plantas e invertebrados estão desaparecendo antes mesmo de serem catalogadas pela ciência. "As políticas atuais falham porque se sustentam em dados incompletos. Não é possível proteger o que sequer foi catalogado", advertem os autores.

Colapso hídrico ameaça o próprio agronegócio

O impacto atinge diretamente a economia brasileira. Berço de oito das doze principais bacias hidrográficas nacionais, o Cerrado vê seu equilíbrio ruir devido à irrigação intensiva e à fragmentação de rios por barragens.

O paradoxo apontado pela pesquisa é alarmante: os setores que mais contribuem para a degradação, o agronegócio e a geração de energia, são os que mais dependem da estabilidade hídrica que o bioma já não consegue prover. O resultado é um ciclo de insegurança econômica em escala continental.

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O abismo entre a lei e a ecologia

A proteção legal do Cerrado é considerada "dramaticamente insuficiente" pelos pesquisadores. Enquanto a Amazônia possui índices mais altos de preservação, apenas 8% do Cerrado é coberto por unidades de conservação, sendo que menos de 3% contam com proteção integral.

O Código Florestal exige que propriedades rurais no bioma mantenham 20% de Reserva Legal, número que os cientistas classificam como obsoleto. Eles propõem:

  • Ampliação da Reserva Legal para, no mínimo, 35%.
  • Revisão das Áreas de Preservação Permanente (APPs) com base em critérios biológicos, e não apenas geográficos.
  • Criação de novas terras indígenas e fortalecimento da governança climática.

"A defesa do Cerrado não é apenas um imperativo ecológico, mas uma agenda de justiça ambiental e segurança hídrica", sintetizam os autores, clamando por um novo olhar sobre o "coração do Brasil", que hoje sangra à sombra da preocupação internacional com a Amazônia.

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