Estudo pioneiro da USP revela que poluição humana e industrial já atingiu o mar profundo na Bacia de Santos

Publicado no periódico Marine Pollution Bulletin, o trabalho liderado por cientistas do Instituto Oceanográfico da USP detectou compostos químicos e fibras sintéticas entre 400 e 1.500 metros de profundidade

A presença de lixo moderno ao lado de artefatos com mais de 500 anos escancara o alcance da degradação ambiental / Reprodução/Facebook Drassm

A presença de lixo moderno ao lado de artefatos com mais de 500 anos escancara o alcance da degradação ambiental / Reprodução/Facebook Drassm

Um estudo conduzido pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) revelou a presença de microplásticos e poluentes orgânicos persistentes (POPs) em sedimentos, peixes e invertebrados que habitam as águas profundas do Brasil.

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As coletas, realizadas na Bacia de Santos, a cerca de 140 quilômetros da costa, ocorreram entre 400 e 1.500 metros abaixo da superfície, em um dos ambientes mais remotos e menos conhecidos do oceano Atlântico.

Publicado no periódico Marine Pollution Bulletin, o trabalho é assinado por pesquisadores do IO-USP e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Ele representa, segundo os cientistas, um passo importante para entender como as atividades humanas já alcançaram até mesmo as regiões mais inacessíveis do mar.

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A expedição e as amostras

As amostras foram coletadas durante duas expedições a bordo do navio oceanográfico Alpha Crucis, da USP, realizadas em setembro e novembro de 2019. Os pesquisadores utilizaram equipamentos capazes de retirar porções intactas de sedimentos marinhos, além de redes de arrasto para capturar peixes e invertebrados que vivem em profundidades extremas.

O orientador do estudo, Paulo Sumida, coordenador do Laboratório de Ecologia e Evolução de Mar Profundo (LAMP) do IO-USP, explicou que o mar profundo é de difícil acesso e exige um custo elevado para pesquisa. Mas, justamente por isso, seu monitoramento é essencial.

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“A presença de microplásticos e poluentes persistentes mostra parte do impacto das atividades humanas e como este ambiente não está tão distante das pessoas como se pode pensar”, afirmou Sumida.

Poluentes encontrados nos peixes e sedimentos

Em laboratório, os profissionais analisaram os sedimentos e os peixes em busca de duas categorias de poluentes orgânicos persistentes (POPs): as bifenilas policloradas (PCBs), utilizadas como isolantes elétricos, e os éteres difenílicos polibromados (PBDEs), empregados como retardantes de chamas. Ambas as substâncias têm longa duração no ambiente e acumulam-se nos organismos ao longo da cadeia alimentar.

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Nos sedimentos, os únicos poluentes detectados foram os PCBs. Já no conteúdo digestivo dos peixes, as duas classes de POPs foram encontradas em quatro espécies:

  • Parasudis truculenta
  • Coelorinchus marinii
  • Hoplostethus occidentalis
  • Neoscopelus macrolepidotus

Gabriel Stefanelli-Silva, primeiro autor do estudo e doutorando no IO-USP com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), destacou que a descoberta é relevante, mas que o maior desafio ainda está por vir.

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“O maior desafio, porém, é determinar a origem dos compostos, já que tanto microplásticos quanto POPs são transportados na atmosfera, e como eles impactam a fauna de profundidade”, ressaltou o pesquisador.

Microplásticos em invertebrados

Enquanto a análise dos sedimentos e dos peixes buscou os poluentes orgânicos persistentes, o objetivo com os invertebrados foi avaliar a presença de microplásticos, fragmentos de plástico com menos de cinco milímetros de comprimento. Para evitar contaminação das amostras, os pesquisadores seguiram um protocolo rigoroso, que incluía o uso de roupas e instrumentos sem fibras sintéticas, além do controle de partículas no ar e nas superfícies utilizadas.

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“Mesmo quando a origem da poluição plástica é a costa, em algum momento essas partículas chegam ao mar profundo, como é chamado todo o ambiente marinho a partir de 200 metros de profundidade. Organismos detritívoros, que se alimentam de detritos no leito marinho, e filtradores são especialmente propícios a ingerir microplásticos”, explicou Stefanelli-Silva.

Entre as nove espécies de invertebrados analisadas, o pepino-do-mar (Deima validum) foi o que apresentou a maior quantidade de microplásticos no sistema digestório. Os tipos de polímeros encontrados incluem:

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  • Poliamida e poliacrilonitrila – usadas na indústria têxtil
  • Poliariletercetona e poliestireno – plásticos resistentes com diversas aplicações
  • Polissulfeto – uma borracha sintética

Para este último, os pesquisadores levantaram a possibilidade de que a fonte da contaminação seja a indústria offshore na Bacia de Santos. Atualmente, cinco plataformas atuam na área, e outras seis estão previstas para 2027, conforme destacou o governo estadual.

Um alerta para o futuro

Os pesquisadores ressaltam que este foi um primeiro levantamento, que deve ser aprofundado em estudos futuros. Em trabalho anterior, Stefanelli-Silva, Sumida e outros cientistas analisaram animais coletados na Antártica entre 1984 e 2016, depositados na Coleção Biológica Prof. Edmundo F. Nonato, do IO-USP. Na ocasião, encontraram o registro mais antigo da presença de microplásticos na Antártica, uma fibra de pouco mais de 2 milímetros detectada nas vísceras de um crustáceo coletado em 1986.

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O estudo integra o projeto “Diversidade e evolução de peixes de oceano profundo (Deep-Ocean)”, apoiado pela Fapesp no âmbito do Programa Biota e coordenado por Marcelo Roberto Souto de Melo, professor do IO-USP que também assina o trabalho.

“O mar profundo é difícil de acessar, tem um custo muito alto para pesquisa, mas é muito importante de ser monitorado. A presença de microplásticos e poluentes persistentes mostra parte do impacto das atividades humanas e como este ambiente não está tão distante das pessoas como se pode pensar”, concluiu Sumida.