Escavações no Centro de SP podem revelar vestígios de igreja e cemitério do século XVIII

Revitalização dos calçadões entra em fase crítica na Praça Antônio Prado; prefeitura mantém entrega das obras para o primeiro semestre de 2025

Projeto de musealização deixará antigas linhas de bonde expostas no calçadão, integrando o patrimônio histórico ao novo mobiliário urbano.

Projeto de musealização deixará antigas linhas de bonde expostas no calçadão, integrando o patrimônio histórico ao novo mobiliário urbano. | Jonatas Oliveira/DL

As obras de revitalização dos calçadões no Triângulo Histórico, no Centro de São Paulo, estão prestes a adentrar uma nova fase de descobertas arqueológicas. Após os achados anunciados em outubro de 2024, que revelaram sítios e trechos preservados da malha de bondes de meados do século XX, a equipe técnica aguarda a exploração de um trecho na Praça Antônio Prado.

O local abrigou, por três séculos, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, demolida no início do século XX, e seu cemitério, o que eleva a expectativa de novos achados.

Apesar de haver pelo menos três sítios arqueológicos ativos e descobertas pendentes, o cronograma de entrega dos calçadões segue mantido para o primeiro semestre de 2025, conforme afirmou Marcos Monteiro, secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras.

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Três pontos exigiram paralisação total

Monteiro explica que, diferentemente de objetos isolados, coletados sem interromper as máquinas, três locais exigiram o “resgate arqueológico”, com paralisação total das obras:

  • Sítio Piratininga (Rua Senador Paulo Egídio)
  • Sítio Piratininga 2 (Rua Quintino Bocaiúva)
  • Sítio Palacete Carvalho (Rua Direita)

Nesses pontos, foram encontradas fundações antigas preservadas sob camadas de aterro, exigindo a ampliação da escavação para avaliar sua extensão real.

Musealização do passado

Parte dos trilhos históricos dos bondes da Light não será removida ou enterrada. Eles serão musealizados, deixados aparentes no calçadão, com sinalização e integração paisagística. O projeto das calçadas foi inclusive alterado para expor dois trechos dessas linhas.

Além dos trilhos, outras estruturas raras devem ser expostas, como janelas inglesas (usadas para ventilação de porões) e valas de pedra (sistemas antigos de drenagem).

Cronograma sob tensão entre preservação e cotidiano

A gestão do tempo é o ponto mais sensível. Enquanto arqueólogos buscam minuciosidade, comerciantes e pedestres pressionam pelo fim dos transtornos. Na Praça Antônio Prado, onde a estátua de Zumbi dos Palmares foi realocada, as frentes de obra são menores para liberar o acesso ao comércio o mais rápido possível.

“Temos feito frentes menores para liberar o mais rápido possível e manter o acesso aos comércios”, explicou Monteiro.

Arqueologia preventiva e uma visão de futuro

Fabio Guaraldo Almeida, do Centro de Arqueologia de São Paulo (CASP), destaca que a cada nova descoberta a obra é paralisada por tempo indeterminado para avaliação. Um arqueólogo acompanha cada frente onde há remoção de solo, pronto para intervir. O objetivo final é criar uma “rota de sítios arqueológicos” no Centro, paralela à já existente rota de prédios históricos.

As descobertas ganham um significado especial no momento em que a Prefeitura planeja implantar um novo VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) na região.

Para Almeida, a conexão entre os bondes do passado e o modal do futuro permite refletir sobre a evolução urbana e a sustentabilidade, já que os antigos bondes eram um transporte de baixa emissão.

Contudo, o especialista faz uma crítica estrutural. “Apesar de termos registros arqueológicos que podem chegar a 7 mil anos em solo paulistano, o Centro de Arqueologia ainda não é consultado no Plano Diretor ou no planejamento urbano inicial.” Sua inclusão, defende, faria grande diferença no planejamento das obras da cidade.