Ernesto Sabato, escritor argentino: “A verdade é aceitável na matemática, na química, na filosofia; não na vida, onde a ilusão, a imaginação, o desejo e a esperança são mais importantes”

Descubra como a mensagem do autor sobre a imaginação humana continua atual na era da inteligência artificial

Seu nome está cravado na história política e social da Argentina por um compromisso inabalável com os direitos humanos | Reprodução

Você já parou para pensar que a ciência, com todos os seus cálculos, não consegue explicar uma desilusão amorosa ou o medo do escuro? O renomado escritor argentino Ernesto Sabato chegou exatamente a essa conclusão. Durante uma famosa entrevista na Espanha em 1977, ele soltou uma frase que hoje soaria perfeita como legenda nas redes sociais. A verdade matemática ou química não serve para a vida real, pois o que realmente importa é a ilusão, o desejo e a esperança.

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Para entender o peso dessas palavras, é preciso mergulhar no passado inusitado desse grande pensador latino-americano.

De promessa da física quântica a gênio da literatura

Pode parecer loucura, mas Sabato não começou a carreira escrevendo romances profundos. No final da década de 1930, ele era considerado uma das mentes mais brilhantes e promissoras da ciência sul-americana. Com um doutorado em Física e Matemática no currículo, ele ganhou uma bolsa cobiçada para trabalhar no prestigiado Laboratório Curie, em Paris.

O grande conflito começou na França. Enquanto calculava radiações atômicas de dia, ele passava as noites frequentando cafés parisienses com ícones do surrealismo, como André Breton e Tristan Tzara. Nesse choque cultural, percebeu algo alarmante: a ciência era genial para dividir o átomo, mas ficava completamente muda diante do mistério do amor e da dor humana. Em 1945, ele chutou o balde acadêmico de vez ao publicar seu primeiro livro de ensaios, “Uno y el Universo”, rompendo definitivamente com o mundo científico.

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O sucesso mundial com os livros e a mente humana

A partir dessa ruptura, a literatura de Sabato virou uma verdadeira trincheira existencial. A sua consagração mundial veio com uma trilogia inesquecível: o mergulho na obsessão em “O Túnel” (1948), a descida aos infernos da condição humana em “Sobre Heróis e Tumbas” (1961) e o desfecho grandioso com “Abaddón, o Exterminador” (1974).

Através dessas obras, ele provou que a mente humana e seus fantasmas são terrenos muito mais fascinantes do que qualquer laboratório de química.

Uma voz de coragem pelos direitos humanos na Argentina

Mas Ernesto Sabato não ficou apenas escondido atrás das máquinas de escrever. Seu nome está cravado na história política e social da Argentina por um compromisso inabalável com os direitos humanos.

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Em 1983, o então presidente Raúl Alfonsín o escolheu para comandar a CONADEP (Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas). Foi Sabato quem coordenou a investigação e ajudou a dar vida ao histórico relatório “Nunca Más”, um pilar fundamental para o julgamento dos militares após o período ditatorial no país.

Por que a mensagem de Sabato é tão atual na era digital?

Reconhecido com o Prêmio Miguel de Cervantes em 1984 (o maior reconhecimento da literatura hispânica) , Sabato passou seus últimos anos recluso em sua casona em Santos Lugares. Já cego e cercado por suas pinturas, ele faleceu aos 99 anos em 2011.

Quase meio século depois daquela famosa entrevista, sua mensagem é um verdadeiro soco no estômago da nossa era moderna. Em tempos dominados por inteligência artificial, dados frios e algoritmos que tentam quantificar nosso comportamento , Ernesto Sabato nos lembra que a única verdade que importa e que vale a pena defender está no sagrado território da nossa imaginação, nos desejos e nas ilusões.