Eu nunca acreditei na Loira do Banheiro. Nenhum de nós acreditava de verdade.
A gente repetia aquela história desde o sexto ano, mas era coisa de criança. Um jeito de passar o tempo no intervalo, de sentir medo de brincadeira, sabendo que no fundo nada daquilo existia. A Loira do Banheiro era lenda. Era invocação de corredor. Não era real.
Foi o que eu pensei até a noite de quinta-feira, 17 de outubro.
Eu tinha 15 anos e estava no nono ano da escola estadual. Todo mês de outubro a turma fazia a tal “noite do terror” ( uma gincana noturna com histórias de assombração, caça ao tesouro no escuro e, no final, a invocação da Loira). Era tradição. Todo mundo ria, ninguém levava a sério.
Mas naquele ano o Rafael apareceu com informações novas.
Ele disse que a Loira não era ficção. Disse que tinha um nome verdadeiro: Maria Augusta de Oliveira Borges. Que ela tinha vivido no século XIX, em Guaratinguetá, uma cidade do interior. Que era filha de uma família rica. E que ela não tinha morrido de doença comum.
Rafael contou que Maria Augusta tinha morrido de raiva. Hidrofobia. A doença que dá medo de água. Que deixa a pessoa com sede o tempo todo, mas sem conseguir engolir nada. Ele disse que por isso que no velório dela colocaram algodão no nariz e na boca da moça, para estancar os fluidos. E que o corpo dela ficou exposto numa redoma de vidro dentro da mansão da família enquanto o túmulo não ficava pronto.
Aquilo mudou tudo. Não era mais uma história inventada. Era uma pessoa de verdade.
Naquela noite, depois da gincana, nove de nós fomos para o banheiro do andar superior. O prédio estava vazio, só a vigilância no portão. As luzes do corredor estavam apagadas. O banheiro masculino tinha três pias, dois vasos e um espelho grande na parede. Alguém fechou a porta.
O Rafael explicou o ritual. A gente teria que ficar em silêncio, apagar a luz e chamar a Loira três vezes. Não cinco. Não duas. Três. E não podia rir. Se alguém risse, ela não vinha. Mas pior: se alguém risse e ela já estivesse vindo, ela ficava com raiva.
Apagaram a luz. O banheiro ficou preto. Só a claridade da lua entrando por uma janelinha alta perto do teto.
— Loira do Banheiro — a gente disse junto, na primeira vez.
Nada.
— Loira do Banheiro — na segunda.
O silêncio voltou. Mais denso. Alguém pigarreou.
— Loira do Banheiro — na terceira.
A torneira da pia do meio abriu sozinha.
Não foi um gotejar. Não foi um vazamento. Foi o registro girando com força, como se uma mão invisível tivesse virado a peça. A água jorrou alta e bateu no fundo da pia com um barulho seco. Dois segundos depois, a torneira do lado fez o mesmo. Depois a terceira.
Todas abertas. Água escorrendo, formando um córrego fino sobre a louça, escorrendo para o ralo, ecoando dentro do banheiro escuro.
Ninguém riu.
O Lucas acendeu a luz do celular. Apontei para o espelho. Queria ver se tinha alguém atrás da gente. Mas o que eu vi no reflexo não era uma figura inteira. Era um rosto. Um rosto branco, com algodão saindo das narinas, cabelo loiro desgrenhado, olhos abertos mas sem nenhuma vida dentro.
Ela estava parada atrás do Matheus. Exatamente como as histórias diziam. Vestido branco, algodão no nariz, a pele pálida como cera de vela.
O Matheus não viu. Mas eu vi. E o Rafael viu. E o Lucas viu.
A gente saiu correndo sem combinar. Empurramos a porta, derrubamos um banco no corredor, descemos as escadas aos tropeços. O vigilante acendeu a lanterna e gritou alguma coisa. Ninguém parou.
Só fui parar de correr quando cheguei no portão da escola, do lado de fora, ofegante, suando frio.
Nos dias seguintes, a gente não falou sobre o assunto. Cada um voltou para a sua vida. As aulas continuaram. A Loira voltou a ser lenda no intervalo.
Mas até hoje, quando eu passo na frente de um banheiro de escola com a porta entreaberta, eu não olho para o espelho. E não entro se a luz estiver apagada.
Acho que ela ainda está lá. Não no banheiro da escola. Mas em todos os banheiros onde alguém duvida que ela existe.
E eu não duvido mais.
*Nota do editor: este texto é uma obra de ficção baseada na lenda urbana da Loira do Banheiro. Personagens e situações são fictícios.
**Fonte da lenda original: Superinteressante e Aventuras na História. Caso real de Maria Augusta de Oliveira Borges (Guaratinguetá/SP, século XIX).
