Em 1890 o 1º Código Penal Republicano brasileiro trazia em uma das suas páginas a condenação de pessoas que praticavam atos que envolvessem a leitura de cartas, o espiritismo e os feitiços em geral, numa demonstração do quanto o país era ligado ao catolicismo padrão (Europeu), e que tudo o que não seguisse suas normas deveria ser evitado, perseguido e combatido.
A historiadora Inês Barreto, que escreveu uma tese de mestrado sobre o Brasil do séxulo XX, estudou a trajetória do livro português de São Cipriano, que chegou ao país no século XIX, e falou com a Reportagem sobre as histórias de perseguição que muitas pessoas sofreram por conta de pensarem a religiosidade de forma diferente do restante da sociedade.
“Muitas pessoas tem a visão da bruxaria ligada à cultura pop, ou seja, serem fantásticos que voavam em vassouras, faziam coisas mágicas, usavam coisas estranhas e tudo mais quando, na verdade, eram pessoas comuns que tinham a sua forma de viver a religião diferente dos padrões da época, onde o catolicismo imperava”, conta Inês.
Normalmente essas pessoas eram pobres e vistas como grande problema social, já que pensavam diferente e tinham costumes contrários aos de uma sociedade fortemente cristã.
“Na Europa, dizer que elas tinham pacto com o demônio ou que voavam durante a noite para se encontrar com o diabo era uma maneira de justificar toda a perseguição e resolver esse problema social, pois eram pessoas que mereciam as punições”, lembra.
No Brasil são os portugueses que trazem essa questão da bruxaria no período da colonização. Ao chegaram por aqui eles dão de cara com os índios, que tinham seus costumes e sua forma particular de “feitiços”, principalmente através do curandeirismo das ervas e assim por diante.
“Mesmo com toda a forma violenta em que se deu a colonização, essas culturas ainda sobreviveram. Muitas vezes em uma mistura até mesmo com o catolicismo, mas elas vão resistindo as repressões, assim temos um grande caldeirão de práticas e feitiços, que ganham mais notoriedade com o nascimento das religiões de matriz africana”, explica Inês.
Ana Baulotti (1925)
No Brasil algumas pessoas foram levadas até a polícia sob a acusação de serem bruxas. É o caso de Ana Baulotti, uma senhora que era dona de uma pensão e que veio a ter problemas com um casal que alugava um de seus quartos. Para que eles saíssem o mais depressa do lugar, ela jogou sal grosso na porta do quarto e, não deu outra: foi parar na polícia acusada de mexer com feitiços e bruxaria.
Outro caso que também consta na dissertação de Inês é o de José Benedicto, ano de 1937. Conhecido na época por juntar ou separar casais, o senhor negro chegou até a polícia por duas vezes, acusado de bruxaria e de usar de feitiços e demais encantos para promover casamentos ou acabar com eles.
Em suma, os bruxos e feitiçeiras brasileiros eram pessoas que tinham uma prática do catolicismo muito diferente do tradicional, pois tinham a influência de culturas não católicas e se utilizavam de ervas e outros atributos para realizar seus trabalhos.
“No Brasil a bruxaria sempre teve o intuito de curar, seja através de ervas, plantas, aromas etc. Porém, essa perseguição – muito presente ainda no governo Vargas – só passa a ser menos intensa com chegada da Lei de Liberdade Religiosa, assinada pelo presidente Lula”, finaliza Inês.
