A década de 1970 ficou marcada pela participação inusitada de Seu Sete Rei da Lira, uma entidade de Umbanda incorporada por Mãe Cacilda de Assis. O guia aparecia nos programas de Chacrinha (TV Globo) e de Flávio Cavalcante (TV Tupi), algo que provocou forte comoção até no regime político.
Na época, os telespectadores ficaram extasiados com a presença do Exu nos estúdios e plateias, elevando a audiência das emissoras. Porém, esse “frisson” desencadeou reações devido aos relatos de pessoas em transe, desmaios e comoção generalizada durante as apresentações.
Integrantes das equipes técnicas e artistas também teriam sido tomados pelo clima espiritual, enquanto cantigas e rituais conduzidos pela entidade dominavam o palco. No dia seguinte, jornais e revistas estampavam o fenômeno que, para muitos, havia “estremecido” a televisão brasileira.
Quem foi a entidade Seu Sete da Lira
Seu Sete da Lira era uma entidade cultuada na Umbanda, conhecida por seu perfil irreverente, boêmio e altamente performático. O guia se manifestava em rituais realizados pela Mãe Cacilda de Assis. A incorporação ocorria principalmente na Tenda Espírita Filhos de Cabocla Jurema, em Santíssimo, zona oeste do Rio de Janeiro.
As sessões reuniam milhares de pessoas e combinavam elementos religiosos com música, espetáculo e participação coletiva. Uma orquestra acompanhava os rituais, executando desde sambas e marchinhas até peças eruditas, criando uma atmosfera pouco convencional para práticas espirituais. O próprio Seu Sete regia os músicos, reforçando a ideia de um culto que dialogava diretamente com o universo popular e midiático.
O “Fenômeno” extrapolou os limites do terreiro na virada dos anos 1960 para os 1970, quando adesivos “Rei da Lira” circulavam pelas ruas do Rio. Caravanas se deslocavam semanalmente para assistir às sessões, que chegaram a reunir até 20 mil pessoas, um público comparado, à época, ao de grandes estádios.
Veja as imagens do guia espiritual nas telinhas
Da fé ao entretenimento de massa
A popularidade crescente levou Seu Sete da Lira à televisão, em um momento em que programas de auditório disputavam intensamente a atenção do público. A ida da entidade aos estúdios representou um encontro direto entre religiosidade afro-brasileira e cultura de massa, algo raro e controverso para a época.
Contudo, a exposição provocou forte reação entre membros dos setores da Igreja Católica, que criticaram a expansão de um “conteúdo marginalizado” nas telinhas. Parte da imprensa “sensacionalista” também associava o episódio a desordem e histeria coletiva.
O caso também chamou a atenção da censura federal, em pleno regime militar. Preocupado com o impacto e com o teor considerado “impróprio” das atrações, o governo pressionou emissoras e levou à suspensão temporária dos programas envolvidos. O episódio contribuiu para um endurecimento das regras sobre o conteúdo exibido na TV, especialmente em programas ao vivo.
A partir dali, o episódio marcou um ponto de inflexão e a televisão brasileira passaria a operar sob vigilância ainda maior. As emissoras começaram a evitar conteúdos considerados controversos ou fora dos padrões estabelecidos pelo regime.
Entre o mito e a memória
Com o passar dos anos, Mãe Cacilda de Assis se afastou da exposição midiática junto com Seu Sete da Lira, que perdeu espaço na imprensa. Ainda assim, o episódio permanece como um dos momentos mais singulares da história da televisão brasileira.








