Como uma dívida de 1 bilhão destruiu a loja de departamentos favorita dos brasileiros

Entenda como os impactos da inflação e o avanço de novos concorrentes derrubaram a empresa mais valiosa do setor comercial de maneira definitiva

Fachada de uma das unidades da loja Mesbla

Tradicional logotipo vermelho na fachada do edifício marcou a paisagem urbana e a memória de consumo de milhares de cidadãos (Reprodução)

Há cerca de 50 anos, a rede de lojas de departamentos Mesbla ostentava o posto de marca mais popular do varejo brasileiro. Sem conseguir acompanhar a rápida evolução dos centros urbanos e das novas tecnologias de consumo, a empresa acabou declarando falência em 1999.

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O grupo ainda tentou um retorno no formato de comércio eletrônico, mas a iniciativa não prosperou por falhas de posicionamento de mercado.

O nascimento da marca

A trajetória da rede de lojas de departamentos teve início com a instalação de sua primeira unidade no prédio número 83, no Centro da cidade do Rio de Janeiro, em 1912. Naquela época, o estabelecimento funcionava como uma filial da firma francesa Mestre e Blatgé. A matriz ficava em Paris e se especializava no comércio de máquinas e equipamentos pesados.

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Quatro anos após a inauguração, a administração da filial fluminense passou para as mãos do francês Louis la Saigne, que atuava como subgerente da unidade de Buenos Aires.

Em 1924, o executivo transformou o estabelecimento carioca em uma firma autônoma, batizada de Sociedade Anônima Brasileira Estabelecimentos Mestre et Blatgé. Apenas em 1939 a empresa adotou a denominação oficial de Mesbla S.A.

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Consolidação de mercado e o início da decadência

Ao longo de décadas, a Mesbla reinou de forma isolada no mercado varejista do País. As grandes unidades comercializavam uma enorme variedade de produtos, incluindo desde botões para roupas até automóveis, lanchas e aviões. Entre os funcionários da época, existia a brincadeira interna de que a loja só não vendia caixões funerários.

Veja mais sobre como era o visual das lojas na galeria abaixo:

No entanto, à medida que a marca expandia a sua atuação, a estratégia logística começava a demonstrar sinais de desgaste. Os principais problemas envolviam a disposição confusa das mercadorias nos corredores e falhas graves no relacionamento com os fornecedores.

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O público frequentemente encontrava peças de vestuário misturadas com artigos para o lar e aparelhos eletrônicos no mesmo espaço. Outro fator crítico ocorreu durante o governo de João Goulart, quando a aproximação diplomática com a União Soviética permitiu a importação de lotes de máquinas e câmeras cinematográficas de baixa qualidade.

Como esse fluxo comercial foi interrompido logo depois, a empresa enfrentou sérias dificuldades para oferecer assistência técnica e peças de reposição aos clientes.

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A tentativa de reformulação visual

Diante dos problemas operacionais crescentes, a Mesbla perdeu a liderança isolada e caiu para a terceira posição entre as maiores potências do varejo nacional. Com o avanço agressivo de concorrentes tradicionais que modernizavam suas operações, a diretoria da companhia tentou implementar uma ampla reestruturação de imagem.

O plano envolveu modificações profundas nos elementos de decoração, nas técnicas de organização das vitrines, nos uniformes dos vendedores e nos canais de comunicação. A publicidade ganhou catálogos coloridos impressos e anúncios sofisticados produzidos para as redes de televisão. Para liderar essa nova fase, a empresa contratou executivos de ponta oferecendo salários acima da média do mercado.

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A crise financeira e o encerramento das atividades

A desestabilização definitiva começou no final do governo de José Sarney, em 1989. Temendo o impacto severo da hiperinflação, a diretoria tomou a decisão de estocar mercadorias em excesso e passou a depender majoritariamente do capital gerado por sua própria financeira interna.

Com a consolidação do Plano Real entre 1993 e 1994, a inflação alta foi controlada e os prejuízos acumulados da Mesbla ficaram expostos. Para conter o endividamento, o grupo iniciou o fechamento em massa de filiais e demitiu milhares de colaboradores. Paralelamente, novas redes varejistas ganharam espaço oferecendo condições de crédito muito mais vantajosas aos compradores.

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Em 1997, acumulando dívidas que superavam a marca de um bilhão de reais, a companhia teve 51% de suas ações adquiridas pelo empresário Ricardo Mansur pelo valor de 600 milhões de reais. O plano estratégico consistia em fundir as operações da Mesbla com as do Mappin, rede varejista popular em São Paulo, criando uma estrutura única para posterior revenda.

A estratégia fracassou devido a problemas crônicos de fluxo de caixa, atrasos crônicos nos pagamentos aos fornecedores e uma série de processos judiciais que inviabilizaram o negócio.

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A falência da Mesbla foi decretada oficialmente em 1999, encerrando uma história de quase nove décadas no comércio físico. Em 2009, detentores dos direitos do nome tentaram relançar a marca como uma plataforma digital de marketplace.

Sem o suporte de lojas físicas, a iniciativa não alcançou o volume de vendas esperado e encerrou as suas operações virtuais de forma definitiva em 2022.

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Daslu

Durante anos, a Daslu foi sinônimo de ostentação e exclusividade em São Paulo. Fundada nos anos 1950 por Lúcia Piva de Albuquerque e Lourdes Aranha, começou como uma butique voltada para a elite paulistana. 

O brilho, porém, durou pouco. Em 2005, poucos dias após a inauguração da Villa, a loja foi alvo da Operação Narciso, da Receita Federal e da Polícia Federal, que investigavam fraudes milionárias em importações. Com dívidas crescentes e dificuldade para manter a operação, a Daslu entrou em recuperação judicial em 2009 e, em 2011, teve parte de seus ativos leiloados.