Novo feito técnico em reator nuclear permite dobrar o combustível sem perder o controle e acelera a corrida pela substituição do petróleo. / Reprodução/Pressefoto, ITER
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Em um cenário de crescente instabilidade geopolítica, a ciência segue avançando por caminhos próprios. Enquanto governos enfrentam tensões e disputas, pesquisadores continuam cooperando em torno de desafios comuns.
Um exemplo recente vem da China, onde cientistas anunciaram um avanço importante na pesquisa sobre fusão nuclear, considerada uma possível fonte de energia limpa, segura e praticamente inesgotável.
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O progresso foi alcançado com o uso do reator experimental EAST (Tokamak Supercondutor Avançado Experimental), operado pelo Instituto de Física de Plasmas da Academia Chinesa de Ciências.
Os pesquisadores conseguiram superar o chamado limite de Greenwald, uma barreira técnica histórica da fusão nuclear. O resultado, divulgado pelo Science Daily, foi obtido durante o período do Ano Novo Chinês e permitiu aumentar a densidade do plasma superaquecido, o combustível da reação, sem comprometer a estabilidade do sistema.
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Na prática, o feito equivale a manter uma fogueira acesa com muito mais lenha do que antes, sem que o fogo se apague ou saia do controle.
Essa conquista amplia as possibilidades para o desenvolvimento de futuros reatores e aproxima a ciência do objetivo central da fusão nuclear: produzir mais energia do que a necessária para iniciar e manter a reação.
“Se essa pergunta fosse feita há dez anos, eu diria que só veríamos protótipos de usinas por volta de 2050. Esse prazo diminuiu bastante com os avanços recentes, especialmente com esse novo recorde”, avalia Alexander Simon Thrysøe, pesquisador em física de plasmas da Universidade Técnica da Dinamarca (DTU).
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A fusão nuclear tenta reproduzir na Terra o mesmo processo que alimenta o Sol e outras estrelas, unindo átomos leves de hidrogênio sob temperaturas extremamente altas.
As vantagens são amplamente conhecidas: não há emissão de gases de efeito estufa, não são gerados resíduos radioativos de longa duração, o processo é considerado seguro e o combustível pode ser extraído da água do mar.
O principal desafio sempre foi tecnológico. Criar e manter condições tão extremas de forma contínua e eficiente é uma tarefa complexa. O avanço obtido na China ataca um dos pontos centrais desse problema e confirma que uma abordagem antes vista como arriscada pode, de fato, funcionar.
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Segundo Thrysøe, a técnica desenvolvida pelos cientistas chineses pode ser reproduzida em outros laboratórios. “É um método acessível, que permite que centros de pesquisa ao redor do mundo testem e aprimorem esse resultado. A cooperação é essencial. Interromper a ciência por motivos políticos só tornaria um desafio já enorme ainda mais difícil”, afirma.
Essa colaboração internacional se reflete no ITER, o maior experimento de fusão nuclear do mundo, que está em construção no sul da França. O projeto reúne 34 países, entre eles China, União Europeia, Estados Unidos, Rússia, Índia, Japão e Coreia do Sul, representando mais da metade da população e da economia global.
O objetivo do ITER é demonstrar que a fusão nuclear pode funcionar em escala próxima à comercial. O primeiro plasma está previsto para 2035, após sucessivos atrasos. O projeto deve integrar avanços obtidos em reatores experimentais menores, como o EAST, e servir de base para futuras usinas.
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Apesar do avanço, especialistas alertam que a fusão nuclear não deve ser vista como solução imediata para a crise climática. Karsten Capion, analista do centro ambiental dinamarquês Concito, defende cautela.
“A emergência climática exige ações agora. A promessa da fusão não pode adiar decisões urgentes que precisam ser tomadas com tecnologias já disponíveis”, afirma.
Para Capion, mesmo no cenário mais otimista, usinas de fusão em larga escala ainda levarão décadas para se tornar realidade. Esse prazo não atende à necessidade de reduzir drasticamente as emissões globais até 2030.
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Ele defende que o foco atual deve estar na expansão acelerada de fontes renováveis, como solar e eólica, além de investimentos em armazenamento de energia e redes inteligentes.
“O risco é apostar em um milagre tecnológico futuro e, com isso, atrasar soluções que já estão ao nosso alcance”, diz.
O recorde alcançado na China não resolve os desafios energéticos ou climáticos do presente, mas aponta para um possível caminho no futuro. O resultado reforça a ideia de que a ciência pode avançar mesmo em um mundo dividido, funcionando como um espaço de cooperação silenciosa.
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A busca por dominar a energia das estrelas continua longa, mas cada novo avanço confirma que esse objetivo, ainda distante, segue mais próximo do que antes.