Estudo liderado pela USP mostra que quase a totalidade dos recifes da região sofreu branqueamento em 2024. / DOMÍNIO PÚBLICO/RAWPIXEL
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Uma onda de calor no oceano registrada em 2024 provocou a morte em larga escala de recifes de coral em diferentes partes do mundo. No Brasil, os impactos mais severos foram observados no litoral do Nordeste, segundo um artigo publicado em setembro de 2025 na revista científica Coral Reefs.
O estudo foi coordenado pelo oceanógrafo Miguel Mies, do Instituto Oceanográfico da USP e integrante do projeto Coral Vivo, responsável pelo monitoramento dos recifes no país.
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De acordo com Mies, em entrevista ao Jornal Nexo, quando o branqueamento dos corais se instala, pouco pode ser feito além de registrar os danos. O fenômeno também foi observado em regiões distantes, como o mar Vermelho, onde pesquisadores liderados pela bióloga brasileira Raquel Peixoto, da Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah (Kaust), na Arábia Saudita, encontraram recifes praticamente destruídos após meses de temperaturas elevadas.
Especialistas alertam que a situação é crítica. Um relatório internacional divulgado em outubro de 2025, com participação de 160 pesquisadores de 23 países, afirma que os corais já ultrapassaram o chamado “ponto de não retorno” térmico.
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O documento aponta que o aquecimento global atual, de cerca de 1,4 °C, já é suficiente para causar mortalidade em massa desses organismos, fundamentais para a vida marinha e para a subsistência de milhões de pessoas.
Os recifes de coral são considerados “engenheiros dos ecossistemas” por criarem habitats que sustentam uma grande diversidade de espécies. Além de protegerem a costa, eles contribuem para cadeias alimentares que chegam à pesca e à alimentação humana. Mesmo que o aquecimento global seja limitado a 1,5 °C, a maioria dos corais de águas quentes corre risco elevado de não se recuperar.
No Brasil, episódios de branqueamento já vinham sendo registrados desde os anos 1990, mas foi a partir de 2019 que eventos mais graves passaram a ocorrer, especialmente no sul da Bahia e na região de Abrolhos. Diante desse cenário, pesquisadores brasileiros criaram, em 2021, um programa nacional de monitoramento que envolve cerca de 90 cientistas ao longo de toda a costa.
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Durante a onda de calor de 2024, o grupo percorreu cerca de 2.700 quilômetros do litoral brasileiro. Os dados mostraram que 96% dos corais do Nordeste apresentaram branqueamento. Em Maragogi, em Alagoas, quase 90% morreram. As altas temperaturas prolongadas e a presença de espécies mais sensíveis explicam a concentração dos danos na região.
Apesar do quadro preocupante, pesquisadores buscam alternativas para reduzir os impactos. Entre elas estão estudos para identificar corais mais resistentes ao calor e o desenvolvimento de probióticos capazes de ajudar esses organismos a sobreviver em ambientes mais quentes. No mar Vermelho, cientistas testam suplementos microbianos em laboratórios subaquáticos, com resultados considerados promissores.
Especialistas, no entanto, alertam que iniciativas de restauração têm alcance limitado se não houver uma ação global efetiva contra as mudanças climáticas. Para eles, a preservação dos recifes depende, sobretudo, de decisões políticas e da redução das emissões de gases de efeito estufa. Sem isso, avaliam, os recifes de coral como são conhecidos hoje podem não resistir às próximas décadas.
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