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Especialista explica como a pressão por aproveitar as pausas prolongadas gera um efeito rebote, transformando o descanso em frustração e evidenciando o esgotamento profissional
Em vez de servirem como um refúgio, as sucessivas interrupções na rotina podem atuar como um espelho / Imagem gerada por IA
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O mês de abril costuma ser aguardado com entusiasmo devido ao calendário repleto de feriados prolongados, mas, para muitos, essas pausas têm provocado um fenômeno inesperado: o agravamento da depressão de domingo.
Em vez de servirem como um refúgio, as sucessivas interrupções na rotina podem atuar como um espelho, tornando ainda mais evidente o peso das obrigações que aguardam na segunda-feira.
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De acordo com a psicóloga Samantha Martin Negrini, o repouso, em muitos casos, não resolve o cansaço, mas sim o revela.
"Quando a pessoa tem pausas, mas ao voltar sente um peso maior, isso pode mostrar que o problema não está na falta de descanso, mas na forma como a rotina está sendo vivida", explica a especialista.
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Para ela, o feriado cria um momento de alívio que torna mais nítido o que não está fazendo bem no dia a dia. "É quase como um contraste: no feriado algo alivia, e aí fica mais evidente o que não está fazendo tão bem", complementa Samantha.
Um dos grandes vilões desse período é a cobrança interna por produtividade no lazer. Frases como "preciso aproveitar" ou "preciso me recuperar" transformam o tempo livre em uma nova tarefa a ser cumprida.
Segundo Samantha, "quando o descanso vira uma obrigação, ele deixa de ser descanso de verdade. A pessoa continua se cobrando, só que de outro jeito".
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O resultado é um domingo à noite carregado de frustração e um certo vazio, alimentado pela percepção de que "nem isso eu consegui direito".
Esse sentimento de insatisfação é potencializado pelas redes sociais e pela comparação com a vida alheia. Além disso, para quem atua em modelo home office, a transição entre o lazer e a obrigação é ainda mais confusa.
Sem a separação física dos ambientes, o domingo à noite pode ser vivido como uma pequena perda.
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"No home office isso pode ficar ainda mais confuso, porque não existe uma separação clara. A pessoa não sente que saiu do trabalho, só muda o momento dentro do mesmo espaço", observa a psicóloga.
O resultado é um domingo à noite carregado de frustração e um certo vazio / Freepik/DC StudioÉ comum sentir um certo incômodo no domingo, pois ele marca a passagem do lazer para as responsabilidades. Entretanto, Samantha Martin Negrini faz uma ressalva importante sobre o uso frequente do termo Burnout.
"O cuidado aqui é não chamar tudo de Burnout. O Burnout não é um 'domingo ruim'. Ele é um estado de esgotamento ligado ao trabalho, que permanece ao longo dos dias, com sensação de cansaço constante, distanciamento e, muitas vezes, perda de sentido no que se faz", alerta.
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O corpo, no entanto, emite sinais silenciosos de que a rotina está sendo prejudicial. Além da insônia e irritabilidade, a especialista destaca sintomas como "um cansaço que já começa antes da semana, dificuldade de começar as coisas e uma sensação de peso ou desânimo sem motivo claro".
Para ela, esses alertas mostram que algo não está bem na relação com a rotina e que o esgotamento pode estar deixando de ser pontual para atravessar a semana inteira.
Para amenizar a angústia dominical, a recomendação não é tentar "consertar" o domingo, mas sim suavizar a chegada da segunda-feira através de um cuidado real, e não de produtividade.
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Samantha sugere pequenas mudanças de hábito, como "diminuir o ritmo aos poucos, evitar deixar tarefas pesadas para o fim do dia e criar um ritual simples de fechamento".
Organizar a semana na sexta-feira também pode ajudar, desde que traga sensação de encerramento e não seja uma forma de "antecipar a semana antes da hora".
Quando o cansaço e a falta de propósito persistem, é o momento de buscar um olhar mais profundo sobre a vida profissional.
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Samantha enfatiza que o acompanhamento terapêutico ajuda a abrir esse olhar, seja para reorganizar a rotina ou para repensar a carreira.
"Mais do que o rótulo, o essencial é entender o que essa experiência está revelando", conclui a psicóloga, reforçando que o foco deve ser sempre a saúde mental e a busca por um cotidiano mais equilibrado.
Para amenizar a angústia dominical, a recomendação não é tentar / Freepik/DC StudioConfira a entrevista completa com a psicóloga Samantha Martin Negrini:
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DL: Frequentemente ouvimos falar da ansiedade pré-segunda, mas em que momento esse sentimento deixa de ser um desânimo comum e passa a ser considerado um sinal de esgotamento ou Burnout?
Samantha: Um certo incômodo no domingo é muito comum, ele marca essa passagem do descanso para as responsabilidades. O cuidado aqui é não chamar tudo de Burnout.
O Burnout não é um “domingo ruim”. Ele é um estado de esgotamento ligado ao trabalho, que permanece ao longo dos dias, com sensação de cansaço constante, distanciamento e, muitas vezes, perda de sentido no que se faz.
Quando isso deixa de ser pontual e passa a atravessar a semana inteira, aí sim a gente precisa olhar com mais atenção.
DL: Por que meses com muitas pausas, como abril, podem acabar intensificando essa sensação em vez de aliviá-la? Existe um efeito rebote quando precisamos voltar à rotina após um feriado prolongado?
Samantha: Porque às vezes o descanso não resolve, ele revela. Quando a pessoa tem pausas, mas ao voltar sente um peso maior, isso pode mostrar que o problema não está na falta de descanso, mas na forma como a rotina está sendo vivida. É quase como um contraste: no feriado algo alivia, e aí fica mais evidente o que não está fazendo tão bem.
DL: Muitas pessoas depositam no feriado a esperança de uma "cura" para o cansaço. Como essa pressão por descansar e aproveitar o tempo livre pode acabar gerando ainda mais frustração e depressão no domingo à noite?
Samantha: Quando o descanso vira uma obrigação: “preciso aproveitar”, “preciso me recuperar” ele deixa de ser descanso de verdade. A pessoa continua se cobrando, só que de outro jeito.
E aí o domingo à noite chega com uma sensação de que “nem isso eu consegui direito”, o que pode gerar frustração e até um certo vazio.
DL: Existe um processo de luto quando o domingo vai chegando ao fim? Como a nossa mente processa essa transição do lazer para a obrigação, especialmente para quem trabalha em modelo home office e não separa fisicamente esses ambientes?
Samantha: De certa forma, sim. O domingo à noite pode ser vivido como uma pequena perda: o fim de um tempo mais livre. E essa transição nem sempre é suave.
No home office isso pode ficar ainda mais confuso, porque não existe uma separação clara. A pessoa não sente que saiu do trabalho, só muda o momento dentro do mesmo espaço.
DL: Além da tristeza, quais são os sinais silenciosos de que o corpo está reagindo negativamente à proximidade da segunda-feira? Insônia e irritabilidade são os únicos alertas?
Samantha: Nem sempre isso aparece de forma tão óbvia. Às vezes vem como:
O corpo vai mostrando, aos poucos, que algo não está bem nessa relação com a rotina.
DL: Ver outras pessoas aproveitando o feriado ou o domingo através das telas pode piorar a nossa própria percepção de cansaço? Como a comparação social contribui para essa angústia?
Samantha: Sim, principalmente pela comparação.
A pessoa vê o outro descansando, viajando, aproveitando… e começa a sentir que o próprio descanso foi insuficiente ou “errado”.
Isso afasta ela da própria experiência e aumenta a sensação de insatisfação.
DL: Quais pequenas mudanças de hábito no domingo à tarde podem ajudar a suavizar a chegada da segunda-feira? Existe alguma técnica de "higiene mental" recomendada?
Samantha: Não é sobre “consertar” o domingo, mas suavizar a transição. Pequenas coisas ajudam:
É mais sobre cuidado do que sobre produtividade.
DL: Organizar a semana na sexta-feira ajuda a diminuir o peso do domingo, ou isso apenas faz com que a pessoa comece a trabalhar mentalmente antes da hora?
Samantha: Para muita gente, sim, pois traz uma sensação de fechamento.
Mas depende de como isso é vivido. Se vira uma forma de já começar a semana antes da hora, pode aumentar a ansiedade. O ponto é conseguir encerrar, e não antecipar.
DL: Em que ponto esse Burnout de domingo indica que o problema não é apenas o dia da semana, mas sim que o indivíduo precisa de uma mudança de carreira ou acompanhamento terapêutico mais profundo?
Samantha: Quando não é só o domingo. Se ao longo da semana existe cansaço constante, irritação, falta de sentido no trabalho ou até um certo afastamento emocional do que se faz, é importante olhar com mais cuidado.
E aqui entra um ponto importante: nem todo sofrimento é Burnout, e nomear tudo assim pode até atrapalhar.
Mais do que o rótulo, o essencial é entender o que essa experiência está revelando.
Muitas vezes, um acompanhamento psicológico ajuda a abrir esse olhar, seja para reorganizar a rotina, assim como para repensar a relação com o trabalho.