Automotor
Mercado de 'restomods' une o design amado dos anos 80 com a tecnologia de 2026, mas nem todo mundo está feliz em ver motores a combustão indo para o 'lixo'
O motorista de hoje quer a eficiência e o silêncio de 2026, mas sente falta da "cara" dos carros dos anos 80 e 90 / Divulgação/Volkswagen
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Imagine um domingo de sol na orla de Santos. Um Opala ou um Fusca impecável passa devagar pela avenida da praia. A pintura brilha, o cromado reflete o mar, mas falta uma coisa essencial: o barulho.
Nada de ronco de motor, nada de cheiro de gasolina, apenas um zumbido elétrico. Bem-vindo à era dos restomods.
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Essa não é uma cena de ficção científica. É um mercado real e bilionário. Montadoras e oficinas especializadas descobriram que a nostalgia é o melhor argumento de vendas.
O motorista de hoje quer a eficiência e o silêncio de 2026, mas sente falta da "cara" dos carros dos anos 80 e 90.
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A Volkswagen foi uma das primeiras a entender o recado em larga escala. Em vez de empurrar apenas designs espaciais e futuristas, trouxe a ID. Buzz.
Você olha e vê a velha Kombi corujinha, com a pintura saia e blusa e o enorme 'V' na frente. Mas por baixo, é um computador sobre rodas, 100% elétrico e com direção autônoma.
A tática é tiro certo para fisgar o consumidor pela memória afetiva. A Renault fez o mesmo ressuscitando o clássico R5 com baterias modernas, e a Ford teve a audácia de colocar um motor elétrico sob a grife do Mustang, criando o SUV Mach-E.
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Mas a febre vai além das concessionárias. O mercado de conversão independente explodiu. Oficinas de alto padrão estão, literalmente, arrancando os velhos motores a combustão e instalando baterias de alta densidade nos antigos chassis.
A própria Ford nos Estados Unidos já vende o Eluminator, um motor elétrico "de prateleira". A lógica é simples: você tem uma picape F-100 do seu avô enferrujando na garagem? Compra o motor, adapta e sai rodando limpo.
Para os colecionadores tradicionais, a "alma" do carro antigo mora justamente na imperfeição / Imagem ilustrativaNo Brasil, empresas já fazem fila de espera para converter Fuscas, entregando um carro com o mesmo volante fininho de fábrica, mas que arranca mais rápido que muito esportivo novo.
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Só que mexer em clássicos mexe com paixões. Vá a qualquer encontro de carros antigos, seja no Centro Histórico de Santos ou nos galpões de exposição da região, e puxe assunto sobre eletrificar um Maverick V8. A resposta raramente será amigável.
Os puristas detestam a ideia. Para os colecionadores tradicionais, a "alma" do carro antigo mora justamente na imperfeição: o cheiro de óleo, a marcha que exige jeito, o carburador e, claro, o ronco do escapamento. Tirar a mecânica original é transformar um pedaço da história em um eletrodoméstico gourmet.
Já a nova geração de donos rebate com praticidade: é melhor ter um clássico elétrico rodando todo dia, sem quebrar e sem poluir, do que um V8 original vazando óleo e encostado na garagem por falta de peça.
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Se você cruzar com um clássico eletrificado, preste atenção aos detalhes:
O visual engana: Por fora, o carro é uns 90% fiel ao original. As mudanças ficam por conta de faróis em LED (mais eficientes) e rodas levemente maiores para aguentar o peso extra da bateria.
Painel 'híbrido': O rádio toca-fitas dá lugar a telas digitais, mas elas costumam ser encaixadas exatamente na mesma moldura redonda do velocímetro original.
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Arrancada de Porsche: Motores elétricos entregam força total de forma imediata. Um Fusca levinho convertido para elétrico deixa muito carro zero km comendo poeira no semáforo.
Fim da graxa: A dor de cabeça da oficina desaparece. Sem óleo, sem correia dentada, sem vela. A manutenção vira basicamente checar freio, pneu e suspensão.