O material oferece novas pistas sobre um período pouco documentado da história / Norfolk Museum Service/Historic England
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Arqueólogos fizeram uma descoberta considerada excepcional no leste da Inglaterra. Em Norfolk, um conjunto raro de artefatos da Idade do Ferro foi encontrado durante uma escavação preventiva ligada a um projeto imobiliário, revelando peças associadas à guerra e ao poder simbólico da cultura celta.
O material, com datação estimada no primeiro século depois de Cristo, oferece novas pistas sobre um período pouco documentado da história britânica e pode ajudar a explicar práticas militares e rituais da época.
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A escavação foi conduzida pela Pre-Construct Archaeology e revelou um depósito arqueológico cuidadosamente enterrado. Entre os objetos estavam uma trombeta de guerra de bronze quase completa, conhecida como carnyx, além de fragmentos de um segundo instrumento do mesmo tipo.
Também foram identificados um estandarte militar em forma de cabeça de javali, partes de escudos e um objeto de ferro ainda não classificado. As peças são extremamente frágeis e precisaram ser estabilizadas antes de qualquer análise aprofundada.
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Especialistas apontam que se trata de um tipo de descoberta incomum, capaz de ampliar significativamente o conhecimento sobre a Idade do Ferro na Europa.
O carnyx ocupa um lugar singular na cultura celta. Apesar de aparecer com frequência em descrições antigas, ilustrações históricas e até na cultura popular, são raríssimos os exemplares preservados encontrados em escavações.
Pesquisadores destacam que esses instrumentos são quase míticos, tamanha a importância simbólica atribuída a eles. Mais do que simples trombetas, os carnyxes eram elaborados, possuíam forte carga ritual e provavelmente tinham funções que iam além do uso militar.
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Reconstruções indicam que o som produzido era potente e intimidador, reforçando seu papel psicológico em contextos de batalha.
Os carnyxes são fortemente ligados à guerra celta. Erguidos acima da cabeça dos guerreiros, eram usados para inspirar as tropas e intimidar os inimigos.
Representações desse uso aparecem em artefatos históricos como o caldeirão de Gundestrup, da transição entre a Idade do Ferro pré-romana e o período romano.
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Embora nenhum exemplar tenha sido encontrado na Escandinávia, descobertas importantes já ocorreram na França, onde instrumentos semelhantes foram associados a contextos rituais e templos gauleses da época da conquista romana.
Há registros históricos de que carnyxes também foram exibidos como espólios de guerra durante triunfos romanos.
O local da descoberta acrescenta ainda mais relevância histórica. Norfolk fazia parte do território dos icenos, tribo celta liderada por Boudica na famosa rebelião contra os romanos, entre os anos 60 e 61 depois de Cristo.
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Após a conquista romana da Britânia, os icenos romperam alianças e protagonizaram uma das revoltas mais violentas do período, destruindo cidades como Camulodunum, Londinium e Verulamium. O conflito foi tão intenso que quase pôs fim ao domínio romano na região.
Embora não haja comprovação direta de que o depósito esteja ligado à rebelião, arqueólogos consideram plausível que os objetos tenham sido enterrados nesse contexto, seja como oferenda ritual, seja para evitar que caíssem nas mãos das forças romanas.
O estado de conservação das peças indica que elas foram depositadas com extremo cuidado.
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Esse detalhe reforça a hipótese de que não se tratou de descarte, mas de uma ação intencional, possivelmente motivada por instabilidade política ou expectativa de tempos mais seguros.
Para os pesquisadores, a descoberta representa uma rara oportunidade de aproximar o registro arqueológico de personagens e eventos históricos conhecidos, algo incomum quando se trata da Idade do Ferro britânica.
O estudo acadêmico completo ainda não foi publicado, mas os primeiros dados já colocam o achado entre os mais relevantes da arqueologia recente no Reino Unido.
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