Mapeamento a laser revela reservatórios, pirâmides e estradas ocultas sob a vegetação; população chegava a 16 milhões / Reprodução/ pxhidalgo/Depositphotos/IMAGO
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Durante décadas, acreditou-se que os antigos maias haviam desaparecido misteriosamente. Mas essa narrativa vem sendo substituída por uma história mais complexa: a de um povo que não sucumbiu, mas se adaptou, migrou e sobreviveu.
O mundo maia está sendo reinterpretado à luz de novas evidências que desafiam ideias fixadas há décadas – sobre população, organização social e o que realmente significou o chamado "colapso" da civilização.
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Um estudo publicado no Journal of Archaeological Science: Reports pelo arqueólogo Francisco Estrada-Belli, da Universidade Tulane, estimou em cerca de 16 milhões a população maia durante o Período Clássico Tardio (600–900 d.C.) – um salto de 45% em relação às estimativas anteriores, que giravam entre 7 e 11 milhões.
Se a estimativa estiver correta, a região abrigava mais gente do que a península Itálica no auge do Império Romano.
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Essa reviravolta no conhecimento se deve ao uso da tecnologia LiDAR. Equipamentos instalados em aviões emitem pulsos de laser que atravessam a vegetação e mapeiam o solo, revelando estruturas invisíveis a olho nu.
Em um escritório em Nova Orleans, arqueólogos observavam que, enquanto removiam digitalmente a vegetação de imagens aéreas, sob o que pareciam simples colinas surgiram reservatórios, terraços agrícolas, canais de irrigação e enormes pirâmides.
"Foi como o que devem ter sentido os astrônomos quando olharam pela primeira vez através do telescópio Hubble", disse à National Geographic o arqueólogo Thomas Garrison.
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"Ali estava aquela vasta selva que todos acreditavam estar quase vazia e, quando removemos digitalmente as árvores, apareceram vestígios humanos por toda parte".
Os novos mapas revelam que os assentamentos maias eram muito mais complexos e interconectados do que se pensava. Em El Mirador, na Guatemala, o LiDAR mostrou que colinas consideradas naturais eram, na verdade, estradas elevadas que conectavam a cidade a mais de 400 assentamentos vizinhos.
Para sustentar populações tão numerosas em um ambiente de solos pobres e ciclos extremos de seca, os maias desenvolveram sistemas sofisticados de terraços, canais e reservatórios – infraestrutura cuja magnitude só agora começamos a compreender.
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A capacidade de sustentar milhões de pessoas dependia de um equilíbrio frágil. Quando o sistema começou a se tensionar, as grandes cidades passaram por transformações. Durante décadas, isso foi interpretado como "colapso". Hoje, os pesquisadores preferem outra pergunta: como conseguiram sobreviver?
"Já não falamos realmente em colapso, mas em declínio, transformação e reorganização da sociedade", explicou ao Guardian Kenneth Seligson, da Universidade Estadual da Califórnia. "Mudanças semelhantes ocorreram em Roma, e hoje quase ninguém fala do grande colapso romano."
Quando Tikal ergueu sua última estela, no ano 869 d.C., a cidade acumulava mais de 1.500 anos de desenvolvimento. O que se seguiu foi um processo gradual: muitos habitantes migraram para o norte e o sul, e cidades como Chichén Itzá cresceram rapidamente.
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Hoje, mais de 11 milhões de descendentes maias vivem no México, Guatemala, Belize, El Salvador, Honduras e Estados Unidos. Muitos estão entre as populações mais pobres do continente, apesar de descenderem de uma das civilizações mais sofisticadas da América pré-colombiana.
Na Guatemala, onde os maias representam 44% da população, identificar-se como maia foi por muito tempo marcado por estigma. As pesquisas arqueológicas assumem, assim, uma dimensão política.
"Não é que os maias sejam melhores, mas que, como seres humanos, são iguais", afirma Liwy Grazioso, ministra da Cultura da Guatemala. "Se privarmos os maias atuais de seu passado glorioso, não teremos que lhes dar poder hoje."
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A disputa pela memória atravessa ainda a guerra civil guatemalteca (1960–1996), que deixou 200 mil mortos, majoritariamente maias.
Enquanto novas tecnologias revelam a riqueza maia, o patrimônio enfrenta ameaças. Os mapas mostram marcas de saqueadores, madeireiros e narcotraficantes que avançam sobre a segunda maior floresta tropical da América.
"O Estado não tem recursos para proteger nosso patrimônio", alerta Marianne Hernández, da fundação Pacunam. "Com os novos dados, ao menos estamos descobrindo onde estão os sítios antes que sejam destruídos."
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O legado dos maias não está enterrado na selva. Segue vivo em milhões de descendentes que continuam lutando pelo reconhecimento de seu lugar na história e no presente da América.