Luiz Eduardo Frin*
Os chamados autos são realizações teatrais de cunho religioso com origem associada ao processo de expansão do cristianismo na Idade Média. À época, sobre carroças, ou utilizando-se da própria geografia como cenário natural para ambientação das peças, passagens bíblicas eram representadas. Assim, iniciou-se uma tradição que chega até aos nossos dias: O Auto da Paixão, no qual a vida, o sacrifício e a morte de Cristo são representados é anualmente levado à cena por ocasião das celebrações da Semana Santa em diversos países de tradição cristã.
No Brasil, a tradição dos autos encontrou-se com a do circo no início do século XX, quando arte circense, prioritariamente corporal e pantomímica, absorveu a palavra e o drama foi incorporado ao espetáculo. Assim, de acordo com a tradição cristã do País, o Auto da Paixão tornou-se importante item do repertório do denominado circo-teatro.
Foi justamente um espetáculo inspirado em um Auto da Paixão nos moldes do circo-teatro que o Coletivo de Artes de São Vicente trouxe para o Festa 57 quando apresentou o seu Rua da Amargura. Aliás, A Rua da Amargura – 14 passos lacrimosos sobre a vida de Jesus é o nome espetáculo dirigido por Gabriel Villela para o Grupo Galpão, que estreou em 1994. Na página do programa do Festa 57 destinada ao Coletivo de Artes de São Vicente, não há a informação se o espetáculo apresentado pelo grupo baseou-se ou relacionou-se de alguma maneira com o trabalho do Galpão, consta apenas que a autoria é de Jobson Ricciardi e a direção de Rodrigo Caesar.
A despeito do empenho do grupo, a apresentação mostrou-se repleta de problemas com a realização de encenação que, ao sobrepor indiscriminadamente pressupostos cênicos diversos, mostrou-se carregada e autocentrada. Assim, perdeu-se em si mesma com prejuízos na relação entre artistas e público. Ao não fazer escolhas e ao não optar pela síntese, a direção expôs a fragilidade técnica dos intérpretes, como ficou evidente na parte musical do espetáculo.
A música, assim como o humor, é elemento essencial do teatro popular e entende-se a opção do grupo em coloca-la como elemento central de sua encenação. Mas, também aqui, faltou a sensibilidade de se evitar a execução de arranjos que não se mostraram compatíveis com o momento do aprimoramento técnico do grupo. Tal falta de sensibilidade, aliada com dificuldades técnicas com os microfones, foi responsável por momentos, evitáveis, que causaram certo constrangimento.
A ideia em apresentar esses problemas é auxiliar na reflexão do grupo acerca dos caminhos que certamente irá, e deve seguir. Também é de reiterar a máxima que em teatro, como em muitos aspectos da vida, o “menos” é, muitas vezes, o “mais”, e que a capacidade de fazer escolhas precisas caminha ao lado do aprimoramento que devemos buscar. Vida longa ao Coletivo de Artes de São Vicente!
*Ator, diretor e professor do Indac-Teatro. Mestre e doutorando em Artes Cênicas na Unesp sob a orientação de Alexandre Mate.
Rua da Amargura: Para frente
O Auto da Paixão, no qual a vida, o sacrifício e a morte de Cristo são representados é anualmente levado à cena por ocasião das celebrações da Semana Santa em diversos países de tradição cristã